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Casos e Causos: Atolado na Páscoa

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Embora sejam os pescadores que ostentem fama por suas histórias mirabolantes, sinto-me tentado a dizer que os fusqueiros são tão ou mais dignos de tal qualificação.

O que narrarei nas linhas abaixo é prova irrefutável disso, ainda que seja a mais absoluta verdade. Talvez com algum detalhe ou outro um pouco exagerado... mas, que é verdade, é!



Barrinho no Rodoanel. Saindo de Ribeirão Pires - SP rumo ao feriado de Páscoa.


Eu havia ido com o Barrinho para passar a Páscoa em Borborema - SP. E, neste exato instante, enquanto aqui escrevo, assusto-me ao recordar que isso ocorreu em 2010. O tempo realmente voa...

Como era de praxe quando das minhas idas com esse tipo de viatura para lá, permaneci o feriado todo na torcida e na expectativa de que chuvas fortes ocorressem. Assim, teria diversão garantida pelas muitas estradas de terra da região. Todavia, um dia passou, e nada de chuva forte.

Não mais nutria esperanças de que iria brincar na lama com o Barrinho. Contudo, ao amanhecer do domingo de Páscoa, acordo com aquele barulho gostoso da chuva caindo. Agradável e relaxante som, trazendo consigo o aroma do mato, relaxando corpo e alma de uma maneira mágica. Se a felicidade pudesse ser resumida a alguma simples condição, talvez isso, necessariamente, relacionar-se-ia à vida no interior...

Saltei da cama com um sorriso no rosto. Enfim iria brincar! Sim, caríssimo leitor. Brincar! Homens grandes brincam tal qual crianças; muda-se apenas, e tão somente, o tamanho dos brinquedos.

Após uma rápida higiene matinal e um breve café da manhã com o distinto sabor da roça, corri para a garagem. O Barrinho estava alegre, como se estivesse a esperar pelo passeio. Aliás... já repararam como, ao olhar um Fusca de frente, dificilmente não se percebe um misterioso sorriso naquelas máquinas? 

Deslocamo-nos pela cidade rumo às estradas vicinais de terra que levam à fazenda da minha vó. Com o motor já aquecido, comecei a acelerar mais forte pelo enlameado percurso. O Barrinho parecia gostar da brincadeira e, tendo superado todo o trajeto com mais facilidade do que o esperado, decidi que teria de escolher um caminho mais radical para ter alguma dose de emoção naquele dia. E, sem muito pensar, optei por seguir o rumo que me levaria à conhecida subida da "serrinha", onde as condições da estrada, bem mais precárias e com um tipo de terra bem mais lisa, certamente proporcionariam mais de diversão. Chegando no objetivo, engatei a primeira marcha e subi vagarosamente, contando com a boa tração dos Fuscas para vencer a subida bem lisa. Nessa época, o Barrinho estava com pneus radiais mais largos e de perfil mais baixo que os originais (5.60-15, convencionais), ótimos no uso normal e no asfalto, mas que promovem enorme prejuízo em termos de performance no off-road. Assim, num dado ponto da subida o carrinho guerreiro não mais conseguiu tracionar, parando de subir. Engatei a ré e descemos para uma nova tentativa.

Como o horário já estava um pouco adiantado, perto da hora do aguardado almoço de Páscoa, não quis perder tempo murchando um pouco os pneus de trás para maximizar a tração. Então, optei pela técnica de iniciar a subida um pouco mais embalado e com pequenas "bombeadas" no acelerador (garantindo a limpeza dos pneus e, por conseguinte, o aumento do seu agarre). Acreditei que isso bastaria para o valente Barrinho transpor o longo obstáculo ascendente. Não deu outra: com essa metodologia, vencemos a primeira parte da subida. Mas, ao chegar no final desta primeira etapa, havia uma curva fechada à esquerda, quando as condições da estrada pioraram ainda mais, resultando em nova perda de tração. Paramos no meio da curva.

Não fosse eu - novamente - teimoso (ou preguiçoso?), e esta história não existiria. Bastaria ter descido e murchado um pouco os pneus, e, então, tudo teria sido resolvido com mais facilidade (e menos trabalho).

Entretanto, tive a nada inteligente ideia de não querer sujar os pés (de novo). Optei por tentar voltar tudo de ré. O Barrinho, com sua extrema esperteza, bem que tentou impedir minha ação bastante burra, dificultando o engate da marcha. Mas eu não lhe dei ouvidos: após algumas tentativas, a ré engatou e iniciei a complicada descida nessa condição escorregadia. Decorridos alguns instantes, a junção da teimosa com a inabilidade culminou num deslizamento da estrada diretamente para o barranco existente no lado direito. 

Considerando-se que existia um bom desnível da estrada até o citado barranco, e considerando-se que o barro estava realmente muito liso, não foi necessário nenhum tipo de inteligência acima da média para concluir que, a partir daquele momento, eu estava de fato bem enrolado.

Ao descer do Barrinho para analisar a situação sob outra óptica (literalmente), quase escorreguei estrada abaixo. Só aí que fui perceber o quão liso realmente estava o chão e o quão valente o Barrinho tinha sido até então. Sem precisar mencionar o quão tonto eu fui ao não descer e murchar os pneus.

Sem muitas alternativas, optei por descer a serrinha para pedir ajuda a alguém que, por ventura, estivesse passando pela região naquele momento. Foi quando, num relance de parca inteligência, pairou sobre mim uma voz conselheira (provavelmente a mesma que estava me orientando até então): qual a possibilidade de alguém estar passando por aqui num domingo de Páscoa chuvoso, e ainda mais com tais condições de estrada? Conclui que a probabilidade disso ocorrer beirava, no limite, a zero.

Iniciei meu retorno até o Barrinho, que estava alguns metros acima de mim agora, na esperança de ter alguma ideia mais plausível. Foi quando, ao chegar ao lado do meu atolado amigo, avistei um Fusca passando lá embaixo,  perto de onde começava a subida da serrinha, onde estava há poucos segundos atrás, meditando sobre a probabilidade de alguém passar por ali para me auxiliar. Não foi difícil, por conseguinte, concluir que eu definitivamente não estava num dia de sucesso e perspicácia em minhas decisões.

Tentei ainda colocar algumas pedras, gravetos e folhas sob os pneus traseiros do Barrinho, mas as tentativas de arrancá-lo de lá estavam sendo realmente infrutíferas.

No momento mais inteligente daquele dia, decidi passar o comando da complicada operação para outro que não eu. E, sentado no banco do motorista, com fome, e já pensando em voltar a pé para a cidade para procurar auxílio, surgiu-me aquela luz no fim do túnel: ligaria para alguém na cidade!

Nesse instante, estimado leitor, evidencia-se o quão ruim é ser vítima daquilo que convencionou-se chamar de humor negro: o celular estava sem sinal (como era de costume nas proximidades da fazenda até há pouco tempo). Em nítida tristeza e plena desesperança, restou-me apenas apoiar no volante do Barrinho e confessar-lhe: "Amigo fiel e valente... se você não nos tirar desse enrosco, aqui ficaremos, pois eu não sei mais o que posso fazer".

Para que o Barrinho fizesse a parte dele, precisaria tentar sair de lá mais uma vez.

Acreditem ou não, na tentativa seguinte, aconteceu o impossível: ele (o Fusca!) escalou aquela grande caída da estrada que nos levara anteriormente aos barrancos, arrastando-se aos poucos, com o motor urrando com as bombeadas de acelerador que eu lhe desferia. Em alguns poucos instantes, chegamos ao mesmo local da curva onde toda a aflição começou, tempos antes.

Sinceramente, não me recordo de qual foi a minha reação naquele instante. Mas, indubitavelmente, proferi muitos agradecimentos ao meu valente amigo, o qual praticamente acabara de realizar um verdadeiro milagre!

Desta vez com plena dedicação e atenção, iniciamos novamente a descida de ré e o resultado foi o esperado. Logramos êxito na empreitada, retornamos para a cidade, e ainda chegamos a tempo de desfrutar o almoço de Páscoa com toda família.

Naquele momento, durante as festividades, indagaram-me o porque da demora exagerada. Respondi-lhes apenas que havia encalhado na subida da serrinha.

- "E como você fez para desatolar o carro de lá sozinho?" - questionaram-me os parentes, aflitos.

Respondi-lhes apenas que sai de lá graças a ajuda de um grande e valente amigo! Não sei como eles entenderam exatamente essa afirmação, mas cessaram os questionamentos.

Horas mais tarde, num outro passeio pelos arredores da fazenda, foi a vez do Fiat Punto do meu primo se enrolar por lá. Montamos uma verdadeira operação de guerra para esse resgate, o qual acabou sendo mais fácil do que o esperado, já que estávamos em grande grupo e com o Barrinho no apoio.



Punto atolado num local próximo (um pouco abaixo) de onde o Barrinho se enroscou horas antes. Embora não seja possível perceber pela foto, o chão estava muito liso, sendo que a subida - e a respectiva queda lateral - são bem mais ingrimes do que a foto faz parecer.


Todavia, com plena certeza, um fato é inquestionável: estivesse eu sozinho lá, com aquele Punto, o resultado teria sido completamente diferente do daquele ocorrido anteriormente com o Barrinho.

Não teria adiantado apenas conversar.... afinal, Puntos definitivamente não tem alma e vida própria como os Fuscas.


Nos vemos na estrada!

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