PENÉLOPE VIAJANTE

Um Blog para todos que adoram Fuscas, Aventuras, Passeios, Viagens, Off-Road e carros em geral!

Viagens e Passeios - Estrada do Sal e Almoço no Mineirin

2 comentários

Domingo de chuva, dia de sujar a viatura: desta vez, um passeio pela Estrada do Sal com um delicioso almoço em Jundiapeba!


Dia 25 de outubro de 2015. São Paulo acordou chuvosa. Um ar frio tocava a janela de nosso quarto, provocando um sibilar surdo, permitindo-nos antever que seria um típico dia preguiçoso, quando a vontade de permanecer deitado sob as cobertas prevaleceria sobre todas as demais forças que atuam no planeta Terra.

Mas mal o despertador tocou, acusando 7 horas da manhã e saltamos da cama. A garoa que principiava cair apenas tornava o dia mais interessante, afinal, nossa turma (a futura equipe Fucalama) iria passear pela Estrada do Sal, culminando o evento num almoço de confraternização no excelente restaurante Mineirin, em Jundiapeba (Mogi das Cruzes - SP).

Após alguns contra-tempos (o controle de presença da Penélope logrou findar sua bateria exatamente na hora que íamos sair, o que - vejamos pelo lado bom - ao menos demonstrou que o sistema da Positron realmente funciona e sem ele o carro só vai embora rebocado, justificando os investimentos...), os quais atrasaram a nossa saída em alguns bons minutos. Tudo resolvido, partimos para encontrar o pessoal para o desjejum matinal.

Antes, entretanto, passamos encontrar o nosso casal de amigos (Du e Tati) que nos honraram com sua companhia, valentemente seguindo o comboio com um Palio (que, diga-se de passagem, nas mãos do Eduardo se tornou um verdadeiro "adventure").

Turma encontrada, viaturas reunidas e saímos para o passeio, tendo o comboio liderado pela Explorer (Fernando e Clarisse), seguido pelo JPX (Serginho e Rosana), pela Penélope (Rodrigo e Marília) e pelo desavisado Palio (Eduardo e Tatiana), cujo motorista, haja vista a falta de costume em andar em comboio de viaturas, atrapalhou-se um pouco no início.

Seguimos pela Rodovia Anchieta até o trevo de acesso para Riacho Grande. Lá acessamos a Rodovia Índio Tibiriçá, a qual nos levou até a Rodovia Caminhos do Mar, antiga estrada para Santos.

Faço aqui uma pausa no relato para protestar contra a decisão de fechar a Caminhos do Mar para a descida dos carros, haja vista que ela ostenta um visual turístico maravilhoso e, por ser nossa - do povo - não é admissível a decisão das incompetentes autoridades em fechá-la. Prezados responsáveis, permitam que, ao menos, sejam organizados passeios com grupos automotivos! Somos nós que bancamos toda a farra que a máquina estatal tem promovido aos cargos públicos! Nós somos os patrões!

Feito o desabafo, prosseguimos com a nossa história.

Seguindo pela Rodovia Caminhos do Mar, chegamos ao Bar da Lu, ponto de encontro tradicional para todos aqueles que visitam a região com intuito de praticar off-road.



Bar da Lu repleto, como sempre, de aventureiros de toda as tribos!


A partir daí, adentramos a antiga Estrada Mogi das Cruzes, onde teve início o trecho visitado da Estrada do Sal, caminho este mantido através de uma parceria das prefeituras de Santo Andre e Mogi das Cruzes, passando ainda por Ribeirão Pires e arredores de Paranapiacaba e Rio Grande da Serra.

O trecho inicial da estrada está bem cuidado, com - infelizmente - muitas pedras alocadas na estrada, evitando que os carros dos moradores e visitantes da região atolem em dias de chuva, como este.
Mais para a frente, pegamos uma saída à direita e, para a nossa alegria - e para desespero, tristeza e braveza da Tati - começaram a aparecer alguns atoleiros, erosões, subidas e descidas e até alguns locais mais desafiadores.



Logo no início da Estrada Caminhos do Sal temos uma pequena barragem. Tradicionalmente paramos para uma foto!



O valente Palio encarando trechos de estrada enlameada e erosões.



Algumas poças rasas existiam pelo caminho. Infelizmente, porém, não registramos os atoleiros mais legais.


Foi quando encontramos um grupo de ciclistas que pedalavam pela estrada. Eles nos advertiram que os carros de passeio não transporiam uma subida íngreme, com erosões, pedras soltas e lama, advertindo-nos para voltar. Obviamente não o fizemos, por alguns motivos. O primeiro é que as pessoas, de modo geral, não tem a menor ideia do que um Fusca é capaz de fazer. O segundo é que, se eles estivessem certos - o que eu duvidada - o JPX poderia ajudar. Portanto, continuamos pela rota pretendida.

Quando finalmente chegamos na subida desafiadora, constatei que, de fato, ela estava pior do que em outras ocasiões. O Fernando reduziu a Explorer e ela, mesmo com a tração dianteira inoperante, vagarosamente foi vencendo, metro a metro, a subida complicada. A reduzida, a suspensão com bom curso, eixo traseiro rígido e o LDS da traseira, além da técnica do Fê, certamente atuaram sobremaneira para este sucesso.
Em segundo lugar tentamos ir a Ma e eu, com a Penélope. Iniciei a subida bem lento, confiante que o Fusca transporia o trecho sem dificuldades. Infelizmente, eu me enganei: por estar com a barra estabilizadora dianteira e a compensadora traseira, a Penélope não se dá bem com erosões, e, invariavelmente, perdia tração no meio da subida. Após algumas tentativas, percebi que apenas passaria impondo uma velocidade suficiente para nos fazer transpor o local com o auxílio da inércia, e assim o fiz. E, como era de se supor, nossa valente Fusca chegou ao topo da subida.
Se o besouro teve dificuldades, certamente a condição seria impossível para o Palio. E esta elucubração se comprovou: Du e Tati precisaram de uma força do valente JPX do Serginho, que os levou até lá em cima sem dificuldade alguma. Afinal, jipe é jipe!

A partir dai o passeio voltou a ir se tornando tranquilo, até que encerramos a brincadeira no asfalto da estada que liga o Rio Grande da Serra à Paranapiacaba.

Pelo adiantado da hora, resolvemos abortar a segunda parte do passeio, que previa uma visita a Paranapiacaba e Taquarussu, prosseguindo diretamente para o restaurante Mineirin em Jundiapeba, Mogi das Cruzes - SP.



Viaturas estacionadas. Acessem o site do Mineirin para maiores informações acerca do local.


Após aproximada 01 hora, chegamos ao restaurante. Percebemos uma evolução desde a última vez que lá fomo (há uns 4 anos atrás...). O que já era muito bom ficou excelente: mesa de frios, de diversidades mineiras, de carnes diversas (churrasco), tudo incluso e à vontade! Sugiro provar o filé argentino e as três linguiças da casa (tradicional, mineira e apimentada). E, segundo o Eduardo, a Fraldinha também estava excelente. Não deixe de provar a cebolada empanada da casa e tampouco o pão de alho! De sobremesa, doce de leite (incluso).



Mesa de saladas (eu passo longe desta parte...).



Mesa bastante diversa, com a deliciosa churrasqueira ao fundo (nesta parte eu faço várias passagens baixas...).


Quando terminamos de empanturrarmo-nos com a deliciosa comida, outra boa surpresa: a conta, para 02 pessoas, com refrigerante, não chegou a 45 reais/pessoa. Considerando-se o ambiente e a qualidade da comida, o preço é bastante honesto.



Meu grande amigo Fernando tirando uma selfie com a turma ao fundo! Diversão sempre garantida com esse pessoal!


Encerramos o dia com uma foto da turma em frente as viaturas e, após as despedidas, pegamos o caminho de volta. Aproveitamos para conhecer o trecho novo do Rodoanel que, saindo e Suzano, leva a Rodovia Dutra.



Cada casal em frente a sua viatura. Grandes amigos e belas máquinas. Uma verdadeira turma do bem!


Ao final do dia, ficou uma certeza: as doses de diversão e de comilança serão repetidas quando visitarmos Paranapiacaba e Taquarussu (e um Palio, em mãos hábeis, faz milagre) em breve!



E, mais do que merecida, uma foto nossa: afinal, preciso sempre agradecer a esta garota por fazer parte da minha vida e por suportar estas aventuras, além das inerentes trapalhadas e contratempos (risos). Amo-te! E neste feriado, ficou-se decidido: a Penélope estará na nossa cerimônia.


Nos vemos na estrada!

2 comentários :

Postar um comentário

Especial: O incrível Fusca Joca

8 comentários

O valente Fusca Joca!


A postagem de hoje será dedicada a um amigo especial. Melhor dizendo, a dois amigos especiais, que nos receberam de braços abertos quando a vontade de fazer trilhas de Fusca era então somente um sonho distante.

Alexandre e o seu Fusca Joca são os dois amigos em questão.

Lembro-me que nos conhecemos através de uma postagem no Fórum Fusca Brasil, onde o Alexandre narrava suas experiências e aventuras no divertido processo de melhoria do originalmente já valente Fusca, passando o Joca a ser uma referência entre os aficionados pelo carrinho, sobremaneira aqueles que adoram empregá-lo quando a estrada comum acaba. As postagens em questão no supracitado fórum poem ser acessadas em: http://www.forumfuscabrasil.com/index.php/topic,33397.0.html

Após algumas trocas de e-mails, combinamos de passear com os Fuscas no Centro de Treinamento de Off Road - Off Track, em Caucaia do Alto - SP, quando, na oportunidade, conheci o também até hoje grande amigo Fernando Miguel e sua valente Rural Madame (quem, invariavelmente, muito me incentivou a conhecer o mundo dos 4x4). Que época gostosa, quando podíamos nos reunir com os grandes amigos, mais vezes, para fazermos aquilo que era paixão de todos: carros fora da estrada!



Fusca Joca descendo um caminho no Off Track para iniciar a brincadeira!



Do ponto de vista do Fusca Barrinho, o qual, junto de mim, aprendíamos lições com os mestres Alexandre e Fernando!



Três amigos, Fuscas Joca e Barrinho, e Rural Madame, ainda limpos, antes de a brincadeira começar! Off Road é amigos e emoção!


Naquela ocasião ficou bem claro que Alexandre e o Joca eram uma dupla de elevada intimidade. Ainda que eu tenha um histórico nada desprezível de milhares de horas e quilômetros no comando de Fuscas, ficou claro para mim que minha habilidade era incomparavelmente inferior ao do, agora, grande amigo Alexandre.



Foto do arquivo: Joca no início de suas incursões no fora de estrada, ainda sem praticamente nenhuma modificação.


Sem exagero algum, o Joca se tornou um dos mais famosos Fuscas de todos os tempos, já que, com poucas modificações, este besouro fez sucesso em diversas trilhas da vida, sendo que seus impressionantes vídeos rodaram o mundo (temos notícias de que o vídeo do Joca na Trilha das Águas subindo a Trilha da Placa rodou por diversos países) e serviram para corroborar o que já é de saber notório: não existe carro 4x2 original no mundo que vai até onde os VW Sedan vão!



Joca e Alexandre no vídeo que rodou o mundo! Sejamos francos: até o Herbie o invejaria!



Outro vídeo do Joca indo até a Placa (Trilha da Placa, Cajamar - SP) por caminhos radicais!


Sendo o Alexandre um dos mais audazes e técnicos pilotos de off-road que conheci, especialmente quando ao volante do Joca, com poucas e precisas modificações conseguiu um resultado formidável, preparando a sua viatura para incursões aparentemente impossíveis. E, assim, o Joca, um Fusca 74, recebeu acessórios que permitiram-lhe transpor obstáculos que, não raro, deixavam boquiabertos os amigos do 4x4, mantendo, ainda, toda a agilidade que somente os Fuscas possuem na terra.

Com protetores dianteiros e traseiros, suspensão original levantada, pneus mistos, proteção do sistema de indução e elétrico, o Joca mescla a aparência original com pequenos detalhes técnicos que o tornam apto a enfrentar locais que até alguns 4x4 pensariam duas vezes em tentar transpor.



Joca em sua configuração mais recente! Absurdamente bruto, porém, ainda, original!


Mas nem tudo na vida é exatamente como queremos. E as poucas vezes que, atualmente, conseguimos reunir nossa turma para fazer o que gostamos é prova irrefutável desta assertiva.

Assim, infelizmente, chegou-me a notícia de que o Joca necessitará ser vendido, pois o meu grande amigo Alexandre tem outros projetos de vida que se sobrepõe em importância ao sonho de um Fusca original imbatível no fora de estrada. E, diante da exposição de suas razões, eu concordo com ele! Eu mesmo deixo de lado alguns sonhos pessoais para privilegiar certas obrigações. Mas, com plena convicção, chegará o momento de vivermos estes sonhos...

Quem estiver interessado no carrinho, garanto que irá obter uma joia rara em termos de história, passado de aventuras, qualidade, bom gosto e, claro, capacidade off road!

E, de brinde, terá em mãos um dos mais famosos Fuscas do Brasil!


Nos vemos na estrada (e, quiça, você com o Joca)...

8 comentários :

Postar um comentário

Casos e Causos: O naufrágio do Fusca Mau

Um comentário

O Fusca Mau algum tempo após os fatos narrados na presente história. Besouros possuem, comprovadamente, uma capacidade de sobrevivência absurda!


A história que narrarei a seguir comprova um fato já certamente conhecido por pessoas mais experimentadas: é preciso ter cuidado com o que você fala às crianças.

Afinal, elas possuem uma capacidade absurda de mentalizar aquilo que lhes é dito, e, invariavelmente, no futuro, usarão tais aprendizados para realizarem "coisas". E, normalmente, tais "coisas" se traduzem em "artes" (empregando o termo de modo estritamente não-artístico). Eu fui prova inconteste desta assertiva!

Na Fazenda São João, em Borborema - SP (de propriedade de uma divertida senhora que costuma nos atender pela alcunha de Vó Gleide), havia um açude.

Açude, para os leitores menos adaptados ao linguajar cotidiano do interior, é um local feito para represar água. No caso específico da presente história, o açude fora criado para usufruto dos gados que existiam nos bons tempos daquela fazenda.

Não raro, descíamos até o pequeno lago para brincar em suas margens (quando éramos crianças as coisas pequenas pareciam enormes e assustadoras...). Noutras vezes o cruzávamos a cavalo. Mas eu sempre tive vontade de atravessá-lo com algum veículo, especialmente porque ele era utilizado como atalho pelos tratores da Fazenda, os quais, evitando alguns quilômetros a mais, atravessavam-no para atingir a sede da propriedade.

Sendo eu, desde aquela época de pivete, um fã incondicional de Fuscas, já tinha para mim que, mais dia, menos dia, tentaria realizar proeza semelhante. Afinal de contas, se os tratores logravam êxito em tais travessias, obviamente que o Fusca passaria no açude (no fantástico mundo da mente infantil, querer é poder, e ponto final!).

Foi quando, não me recordo ao certo quantos anos tinha, que comentei com meu pai algo a respeito disso. Estávamos indo ao sítio com o Chevette SL/E 1991 dele. Questionado a respeito de minhas intenções, meu pai, como competente Engenheiro Civil formado pela POLI-USP, retrucou-me afirmando que, se a profundidade do lago não fosse tão exagerada (como de fato não era, exceto em alguns locais), a travessia seria possível com o Chevette pois a água facilitaria ao pneu encontrar solo firme (em que pese a esplêndida formação técnico-científica dos engenheiros da Escola Politécnica, hoje tenho a plena ciência de que lhes faltam alguns vários crédito do tema "Tipos de solo e respectivas transposições por veículos automotivos"...). Incrédulo com a assertiva proferida por meu pai (qualquer pessoa que já teve um Chevette sabe que eles atolam até em asfalto molhado...), desafiei-o. Recordo-me de que ele, naquele instante, desviou-nos do caminho que, em condições normais, levar-nos-ia até a sede da Fazenda, para ir até o pequeno lago. Mas, na ocasião, a estrada que lhe dava acesso estava um pouco precária e, para não enroscar o baixo Chevrolet em algum buraco, ele desistiu da desmiolada façanha. Quanta sorte! Destarte, é evidente que se o Chevy não conseguia sequer chegar até o açude, jamais conseguiria adentrá-lo, muito menos transpô-lo (talvez o fato da desistência em tempo hábil seja prova irrefutável de que nos momentos em que a ausência plena de inteligência se apresenta, somos guiados por alguma força superior).

Mas, confesso, fiquei com aquilo na cabeça: se meu pai, por qualquer motivo que fosse, cogitou tentar atravessar o lago com o Chevette (que era um excelente carro na época, mas que adorava apenas o asfalto), indubitavelmente que o Fusca lograria êxito em sua travessia.

E, por mais que tivéssemos um Fusca na família naquela época, depois que o Chevette passou a ser nosso carro de viagem, o valente besouro - comprado pelo meu Avô Jorge e dado de presente ao seu filho - não mais foi a Borborema. Assim, tive de esperar meu próprio Fusca para tentar a façanha. Passados alguns anos, eu comprei o Fusca Mau.

As investidas nas estradas da Fazenda e seus arredores em dias de chuva eram constantes. De dia ou de noite, bastava o céu despejar sua água que lá ia eu brincar de fazer rally com o valente Fusquinha.

O leitor que acompanha o nosso blog sabe que este Fusca não estava configurado para aventuras fora de estrada. Para ser sincero, tinha até pior desempenho nesse tipo de uso do que um original, uma vez que estava calçado em rodas de aro 14 com pneus de perfil mais baixo e consideravelmente mais largos (para entender bem o assunto, sugiro a leitura dos postes relacionados a calibragem de pneus, os tipos de pneus para cada uso, e sobre a qualidade do besouro no fora de estrada). Ainda assim, nos deslocamentos normais da Fazenda para a cidade, ele trafegava com relativa tranquilidade sob qualquer condição de tempo. Mas, para um uso off road mais pesado, aquela configuração estava completamente fora do ideal.

Naquela época, também, no auge dos meus 18 anos de idade, ostentava todos os ingredientes para o insucesso: sempre costumo dizer que "a coragem excessiva é uma flor colhida no jardim da inexperiência", sendo tal frase costumeiramente corroborada por fatos diversos.

Assim, sem entender quase nada sobre características necessárias para manter a boa capacidade off-road original do besouro, e sem saber ao certo que o Fusca Mau tinha perdido boa parte da sua aptidão para a lama, decidi que iria realizar o antigo sonho: finalmente iria atravessar o açude de Fusca!

Não me recordo ao certo quem estava presente naquele dia para confirmar minha versão. Meu primo Lucas, contudo, certamente estava lá com outro carro.

E, assim, fomos até o local que dava acesso ao açude.

Parei o Fusca Mau antes da água e olhei - confesso que naquele momento deu um certo medo, afinal, sempre tive medo de água por não saber nadar. Todavia, confiante na valentia do Fusca, acelerei. Ao entrar na água, desde que um pouco mais funda, o Fusca, que é naturalmente leve, tem uma tendência de flutuar. Calçado em pneus largos, e sendo o fundo daquele lago um lodo extremamente liso, não era difícil prever o que aconteceria: o carro perdeu tração e começou a patinar. Mas o meu querido carrinho, vendo que eu estava cometendo um enorme ato de extremada burrice, resolveu me dar uma chance e, de forma surpreendente, completou a travessia. Cheguei na outra margem feliz da vida: um sonho de criança havia sido realizado. Não podia ser diferente, afinal de contas, meu carro era um Fusca!

Mas o destino gosta de pregar peças...

Saindo na outra margem do açude, precisaria subir até a sede da Fazenda pelo caminho que o gado costumeiramente utilizava para subir para o seu curral. Por conta desse deslocamento constante dos bichinhos, foram criadas grandes erosões nessa subida. Na oportunidade, ao olhar para tais erosões, desisti de ir até a sede por essa rota, pois fiquei com receio de algo dar errado (o que demonstra a minha completa inexperiência em fora de estrada na ocasião, pois hoje sei que o trecho seria facilmente transponível pelo Fusca através do emprego de técnicas corretas). Naquele instante, o elo faltante para o total colapso da inteligência se completou: decidi retornar pelo lago.

Fiz meia volta com o Fusca Mau e mirei novamente o açude. Ao invés de retornar exatamente pelo local que havia passado na primeira vez, mais confiante, rumei direto para a outra margem. O valente carrinho adentrou a água, andou alguns metros e, caindo num buraco mais fundo, parou. Tentando sair do enrosco em que me enfiei, engatei a ré e acelerei. Naquele momento, completei o ciclo da ignorância e do desconhecimento, mantendo o carro bastante acelerado para não deixar a água entrar no escapamento (muitos anos mais tarde, aprendi que isso é uma das maiores lendas que existe no universo automotivo, sendo a entrada de água pelo escamento é uma das coisas que menos deve causar preocupação na transposição de trechos alagados). Tal bestial ação fez com que a polia do virabrequim jogasse água por todo o cofre do motor, molhando distribuidor, filtro de ar e, como aprendi depois, sugando água para dentro do cárter pela pressão negativa de ar exercida pela polia). Resultado: o motor apagou no meio do açude. E, para fechar o dia que para mim significou um vácuo de massa cinzenta, tentei ligar o motor novamente por diversas vezes, encerrando com chave de ouro as sequências de trapalhadas.

A água entrou para valer no interior do carro. Meu primo, que assistia a tudo da estrada, de dentro de outro carro, foi até a sede para buscar nosso Tio Dio para que me socorresse. Tios necessitam de uma dose extra de paciência, pois precisam aturar as travessuras desmedidas dos sobrinhos...

Quando nosso tio chegou no açude com o seu Gol, ao ver as condições de submersão que estava o Fusca, concluiu que o seu carro não teria força, nem tração, nem resistência de engate para fazer o resgate. E, assim, resolveu ir buscar o trator para promover o salvamento.

Para o bruto Ford 4600, retirar o VW Sedan do lago foi tarefa fácil. Depois, tentamos sem sucesso fazer o meu carro ligar. Pelo insucesso, resolvemos rebocá-lo até a sede da Fazenda.

Para amenizar um pouco o estrago, iniciei a retirada da água que se alojou dentro do besouro. E, junto desta respeitável quantidade de água, saíram alguns girinos e peixinhos, os quais provavelmente entraram no carro quando eu abri a porta para sair.

E, assim, o Fusca Mau foi deixado lá quietinho para um providencial socorro no dia seguinte.

Infelizmente, dado o desespero na ocasião, não foram feitos registros fotográfico do ocorrido. Temos, porém, considerável número de testemunhas oculares.

Rebocamos o carrinho até uma oficina da cidade com o Gol do Tio Dio.

Como é típico do interior, rapidamente a história se espalhou pela cidade. E, como também é costumeiro, a história teve suas versões incrementadas, até chegar a um descritivo definitivo: o neto da Dona Gleide havia caído com um Fusca dentro de um grande lago, submergindo-o. Vai entender...

Passado uns poucos dias, ligou-me o mecânico informando que o Fusca estava pronto. Comprovando sua valentia, bastou uma troca de óleo para retirar a água do cárter, uma secagem do filtro de ar, das velas, dos cabos, da bobina e do distribuidor, e ele voltou a funcionar novamente, como se quase nada tivesse acontecido. O motor Boxer refrigerado a ar é incrivelmente robusto e resistente!

Mandei-o na sequência para uma providencial lavagem completa, inclusive em seu interior, seu estofado e complementando com plena lubrificação.



O interior do Fusca Mau privilegiava o conforto, ostentando carpetes ao invés das passadeiras de carrapatinho. Por isso, o interior foi mais prejudicado do que um em configuração original.



E, pouco tempo após o naufrágio, lá estava o Fusca Mau aprontando novas travessuras pelas ruas de Borborema, até acabar minhas férias da ocasião.

Acabei deixando o carro por lá, e, dias após, meu pai foi buscá-lo. E, mesmo depois disso tudo, o carrinho voltou para São Paulo sem nenhum tipo de ocorrência.

Tem coisas que somente os Fuscas são capazes de fazer...

Nos vemos na estrada!

Um comentário :

Postar um comentário