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Casos e Causos: O naufrágio do Fusca Mau

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O Fusca Mau algum tempo após os fatos narrados na presente história. Besouros possuem, comprovadamente, uma capacidade de sobrevivência absurda!


A história que narrarei a seguir comprova um fato já certamente conhecido por pessoas mais experimentadas: é preciso ter cuidado com o que você fala às crianças.

Afinal, elas possuem uma capacidade absurda de mentalizar aquilo que lhes é dito, e, invariavelmente, no futuro, usarão tais aprendizados para realizarem "coisas". E, normalmente, tais "coisas" se traduzem em "artes" (empregando o termo de modo estritamente não-artístico). Eu fui prova inconteste desta assertiva!

Na Fazenda São João, em Borborema - SP (de propriedade de uma divertida senhora que costuma nos atender pela alcunha de Vó Gleide), havia um açude.

Açude, para os leitores menos adaptados ao linguajar cotidiano do interior, é um local feito para represar água. No caso específico da presente história, o açude fora criado para usufruto dos gados que existiam nos bons tempos daquela fazenda.

Não raro, descíamos até o pequeno lago para brincar em suas margens (quando éramos crianças as coisas pequenas pareciam enormes e assustadoras...). Noutras vezes o cruzávamos a cavalo. Mas eu sempre tive vontade de atravessá-lo com algum veículo, especialmente porque ele era utilizado como atalho pelos tratores da Fazenda, os quais, evitando alguns quilômetros a mais, atravessavam-no para atingir a sede da propriedade.

Sendo eu, desde aquela época de pivete, um fã incondicional de Fuscas, já tinha para mim que, mais dia, menos dia, tentaria realizar proeza semelhante. Afinal de contas, se os tratores logravam êxito em tais travessias, obviamente que o Fusca passaria no açude (no fantástico mundo da mente infantil, querer é poder, e ponto final!).

Foi quando, não me recordo ao certo quantos anos tinha, que comentei com meu pai algo a respeito disso. Estávamos indo ao sítio com o Chevette SL/E 1991 dele. Questionado a respeito de minhas intenções, meu pai, como competente Engenheiro Civil formado pela POLI-USP, retrucou-me afirmando que, se a profundidade do lago não fosse tão exagerada (como de fato não era, exceto em alguns locais), a travessia seria possível com o Chevette pois a água facilitaria ao pneu encontrar solo firme (em que pese a esplêndida formação técnico-científica dos engenheiros da Escola Politécnica, hoje tenho a plena ciência de que lhes faltam alguns vários crédito do tema "Tipos de solo e respectivas transposições por veículos automotivos"...). Incrédulo com a assertiva proferida por meu pai (qualquer pessoa que já teve um Chevette sabe que eles atolam até em asfalto molhado...), desafiei-o. Recordo-me de que ele, naquele instante, desviou-nos do caminho que, em condições normais, levar-nos-ia até a sede da Fazenda, para ir até o pequeno lago. Mas, na ocasião, a estrada que lhe dava acesso estava um pouco precária e, para não enroscar o baixo Chevrolet em algum buraco, ele desistiu da desmiolada façanha. Quanta sorte! Destarte, é evidente que se o Chevy não conseguia sequer chegar até o açude, jamais conseguiria adentrá-lo, muito menos transpô-lo (talvez o fato da desistência em tempo hábil seja prova irrefutável de que nos momentos em que a ausência plena de inteligência se apresenta, somos guiados por alguma força superior).

Mas, confesso, fiquei com aquilo na cabeça: se meu pai, por qualquer motivo que fosse, cogitou tentar atravessar o lago com o Chevette (que era um excelente carro na época, mas que adorava apenas o asfalto), indubitavelmente que o Fusca lograria êxito em sua travessia.

E, por mais que tivéssemos um Fusca na família naquela época, depois que o Chevette passou a ser nosso carro de viagem, o valente besouro - comprado pelo meu Avô Jorge e dado de presente ao seu filho - não mais foi a Borborema. Assim, tive de esperar meu próprio Fusca para tentar a façanha. Passados alguns anos, eu comprei o Fusca Mau.

As investidas nas estradas da Fazenda e seus arredores em dias de chuva eram constantes. De dia ou de noite, bastava o céu despejar sua água que lá ia eu brincar de fazer rally com o valente Fusquinha.

O leitor que acompanha o nosso blog sabe que este Fusca não estava configurado para aventuras fora de estrada. Para ser sincero, tinha até pior desempenho nesse tipo de uso do que um original, uma vez que estava calçado em rodas de aro 14 com pneus de perfil mais baixo e consideravelmente mais largos (para entender bem o assunto, sugiro a leitura dos postes relacionados a calibragem de pneus, os tipos de pneus para cada uso, e sobre a qualidade do besouro no fora de estrada). Ainda assim, nos deslocamentos normais da Fazenda para a cidade, ele trafegava com relativa tranquilidade sob qualquer condição de tempo. Mas, para um uso off road mais pesado, aquela configuração estava completamente fora do ideal.

Naquela época, também, no auge dos meus 18 anos de idade, ostentava todos os ingredientes para o insucesso: sempre costumo dizer que "a coragem excessiva é uma flor colhida no jardim da inexperiência", sendo tal frase costumeiramente corroborada por fatos diversos.

Assim, sem entender quase nada sobre características necessárias para manter a boa capacidade off-road original do besouro, e sem saber ao certo que o Fusca Mau tinha perdido boa parte da sua aptidão para a lama, decidi que iria realizar o antigo sonho: finalmente iria atravessar o açude de Fusca!

Não me recordo ao certo quem estava presente naquele dia para confirmar minha versão. Meu primo Lucas, contudo, certamente estava lá com outro carro.

E, assim, fomos até o local que dava acesso ao açude.

Parei o Fusca Mau antes da água e olhei - confesso que naquele momento deu um certo medo, afinal, sempre tive medo de água por não saber nadar. Todavia, confiante na valentia do Fusca, acelerei. Ao entrar na água, desde que um pouco mais funda, o Fusca, que é naturalmente leve, tem uma tendência de flutuar. Calçado em pneus largos, e sendo o fundo daquele lago um lodo extremamente liso, não era difícil prever o que aconteceria: o carro perdeu tração e começou a patinar. Mas o meu querido carrinho, vendo que eu estava cometendo um enorme ato de extremada burrice, resolveu me dar uma chance e, de forma surpreendente, completou a travessia. Cheguei na outra margem feliz da vida: um sonho de criança havia sido realizado. Não podia ser diferente, afinal de contas, meu carro era um Fusca!

Mas o destino gosta de pregar peças...

Saindo na outra margem do açude, precisaria subir até a sede da Fazenda pelo caminho que o gado costumeiramente utilizava para subir para o seu curral. Por conta desse deslocamento constante dos bichinhos, foram criadas grandes erosões nessa subida. Na oportunidade, ao olhar para tais erosões, desisti de ir até a sede por essa rota, pois fiquei com receio de algo dar errado (o que demonstra a minha completa inexperiência em fora de estrada na ocasião, pois hoje sei que o trecho seria facilmente transponível pelo Fusca através do emprego de técnicas corretas). Naquele instante, o elo faltante para o total colapso da inteligência se completou: decidi retornar pelo lago.

Fiz meia volta com o Fusca Mau e mirei novamente o açude. Ao invés de retornar exatamente pelo local que havia passado na primeira vez, mais confiante, rumei direto para a outra margem. O valente carrinho adentrou a água, andou alguns metros e, caindo num buraco mais fundo, parou. Tentando sair do enrosco em que me enfiei, engatei a ré e acelerei. Naquele momento, completei o ciclo da ignorância e do desconhecimento, mantendo o carro bastante acelerado para não deixar a água entrar no escapamento (muitos anos mais tarde, aprendi que isso é uma das maiores lendas que existe no universo automotivo, sendo a entrada de água pelo escamento é uma das coisas que menos deve causar preocupação na transposição de trechos alagados). Tal bestial ação fez com que a polia do virabrequim jogasse água por todo o cofre do motor, molhando distribuidor, filtro de ar e, como aprendi depois, sugando água para dentro do cárter pela pressão negativa de ar exercida pela polia). Resultado: o motor apagou no meio do açude. E, para fechar o dia que para mim significou um vácuo de massa cinzenta, tentei ligar o motor novamente por diversas vezes, encerrando com chave de ouro as sequências de trapalhadas.

A água entrou para valer no interior do carro. Meu primo, que assistia a tudo da estrada, de dentro de outro carro, foi até a sede para buscar nosso Tio Dio para que me socorresse. Tios necessitam de uma dose extra de paciência, pois precisam aturar as travessuras desmedidas dos sobrinhos...

Quando nosso tio chegou no açude com o seu Gol, ao ver as condições de submersão que estava o Fusca, concluiu que o seu carro não teria força, nem tração, nem resistência de engate para fazer o resgate. E, assim, resolveu ir buscar o trator para promover o salvamento.

Para o bruto Ford 4600, retirar o VW Sedan do lago foi tarefa fácil. Depois, tentamos sem sucesso fazer o meu carro ligar. Pelo insucesso, resolvemos rebocá-lo até a sede da Fazenda.

Para amenizar um pouco o estrago, iniciei a retirada da água que se alojou dentro do besouro. E, junto desta respeitável quantidade de água, saíram alguns girinos e peixinhos, os quais provavelmente entraram no carro quando eu abri a porta para sair.

E, assim, o Fusca Mau foi deixado lá quietinho para um providencial socorro no dia seguinte.

Infelizmente, dado o desespero na ocasião, não foram feitos registros fotográfico do ocorrido. Temos, porém, considerável número de testemunhas oculares.

Rebocamos o carrinho até uma oficina da cidade com o Gol do Tio Dio.

Como é típico do interior, rapidamente a história se espalhou pela cidade. E, como também é costumeiro, a história teve suas versões incrementadas, até chegar a um descritivo definitivo: o neto da Dona Gleide havia caído com um Fusca dentro de um grande lago, submergindo-o. Vai entender...

Passado uns poucos dias, ligou-me o mecânico informando que o Fusca estava pronto. Comprovando sua valentia, bastou uma troca de óleo para retirar a água do cárter, uma secagem do filtro de ar, das velas, dos cabos, da bobina e do distribuidor, e ele voltou a funcionar novamente, como se quase nada tivesse acontecido. O motor Boxer refrigerado a ar é incrivelmente robusto e resistente!

Mandei-o na sequência para uma providencial lavagem completa, inclusive em seu interior, seu estofado e complementando com plena lubrificação.



O interior do Fusca Mau privilegiava o conforto, ostentando carpetes ao invés das passadeiras de carrapatinho. Por isso, o interior foi mais prejudicado do que um em configuração original.



E, pouco tempo após o naufrágio, lá estava o Fusca Mau aprontando novas travessuras pelas ruas de Borborema, até acabar minhas férias da ocasião.

Acabei deixando o carro por lá, e, dias após, meu pai foi buscá-lo. E, mesmo depois disso tudo, o carrinho voltou para São Paulo sem nenhum tipo de ocorrência.

Tem coisas que somente os Fuscas são capazes de fazer...

Nos vemos na estrada!

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