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Dicas Técnicas: Empregando o Fusca como um utilitário faz-tudo

6 comentários

Barrinho carregado com vigas de aço, após subir uma rampa considerável. Tarefa impossível para outros carros de passeio, mas que para ele era rotina normal.


Sabe aquela história do "lobo em pele de cordeiro"?

O conceito pode ser inteiramente aplicado ao Fusca.

Mas como fazer com que seu Fusca atue como um bravo utilitário? Nas linhas a seguir, após breve introdução puramente emocional, dissertaremos acerca do aparato técnico e operacional para que o objetivo seja cumprido.




Barrinho recém adquirido, estacionado no Aeroclube de Itu (destino de todos os finais de semana) já com os racks de teto da Week-End, cuja qualidade e capacidade de carga surpreendeu-nos ao longo dos anos.


Possuidor de um motor de satisfatório torque em baixa rotação, embreagem e câmbio resistentes, suspensão incrivelmente robusta, chassi tubular, lata de chapa grossa, pneu convencional (diagonal), absurda simplicidade mecânica e outras infindas características técnicas primorosas, o besouro resiste de forma incontestável ao ser empregado em condições de trabalho pesado, situações estas as quais praticamente nenhum outro carro de passeio suportaria.



Diuturnamente, o Barrinho demonstrava toda a sua capacidade. Não demorou muito para que meu pai, diante da infinidade de empregos que eu fazia com o Barrinho, exclamasse: este carro já se pagou algumas milhares de vezes!


Em 2010, objetivando ter uma verdadeira viatura "faz tudo", sugeri que adquiríssemos um Fusca. Sob protestos incrédulos, minha insistência venceu: compramos e preparamos aquele que talvez tenha sido o mais feliz dentre todos os VW Sedan - o valente Barrinho, um polivalente Fusca utilitário, capaz de cumprir as mais absurdas missões. Enfim, um verdadeiro companheiro de aventuras que mostrou empiricamente que o limite operacional deste carrinho está muito além do que o senso comum jamais poderia acreditar.

Na época, tínhamos alguns problemas de acesso em nossa empresa, uma vez que as ruas de acesso estavam sendo pavimentadas e adequadas. Muitas vezes danificamos os Vectras que davam apoio ao escritório ao trafegarmos com eles naquelas condições. Unindo-se o que para mim era útil e agradável, e na tentativa de minimizar os elevados gastos com fretes de máquinas e equipamentos, tracei um modus operandi que englobava o Barrinho em praticamente todas as atividades do dia a dia: da rodagem simples ao trabalho pesado; das viagens pessoais às trilhas de lazer.



Embora a capacidade declarada do rack fosse de até 100 kg, não raras as vezes transportamos até 300 kg. A lataria de chapa grossa, aliada a alguns reforços nas calhas do teto, permitiam que a estrutura suportasse tais abusos, jamais previstos no projeto do besouro.


A primeira e imediata providência que tomei após adquiri-lo foi instalar um par de racks de teto da Week-End (os quais provavelmente são os melhores dentre os disponíveis no mercado).

Na sequência, instalamos argolas de amarração nos suportes da lâmina do para choque, permitindo que peças compridas pudessem ser transportadas com relativa facilidade e segurança, já que, com estes novos pontos de amarração, o efeito pendular das cargas longas podia ser bastante minimizado.



No clima da Copa do Mundo de 2010: alocamos algumas bandeiras do Brasil, as quais foram espalhadas pelo carro. Enquanto muitas pessoas torciam o nariz para o que fazíamos com este Fusca, outras tantas - a maioria - se admiravam com a capacidade do carrinho, sendo que normalmente ele virava a atenção nas empresas visitadas.



Não bastasse carregar considerável peso, esta viatura os transportava morro acima quando os caminhões tinham dificuldades em subir as vigas de aço devido ás chuvas e condições precárias da rampa.


Na sequência, instalamos um fantástico engate da Engforth (cujo modelo adquirido infelizmente não é mais fabricado, o que é lamentável, já que era, de longe, o melhor do mercado) e luzes auxiliares dianteiras e traseiras, as quais permitiam o emprego do carro a qualquer hora do dia ou da noite pois eram manualmente direcionáveis (auxiliando as operações de carga e descarga noturna).

Também colocamos calhas de chuva para facilitar a dirigibilidade (dificultando que o vidro embasasse quando a água estava caindo do céu), third brak light, retrovisores de Kombi de ambos os lados (para maximizar o campo de visão, auxiliando sobremaneira as manobras em ré com a carretinha engatada), lavadores elétricos dos vidros, e, por fim, lixas anti-derrapantes que permitiam que o carro fosse escalado com segurança (para facilitar a alocação das cargas).



Luz adicional de freio, luz adicional de ré e farolete direcional, engate incrivelmente robusto. Acessórios que facilitavam bastante o trabalho e as incursões off-road.



Os grandes retrovisores da Kombi majoravam consideravelmente o campo de visão, facilitando a condução e, especialmente, as manobras com a carretinha engatada. Os faróis auxiliares com grade off road, além de melhorarem bastante a visibilidade no período noturno, deixavam o carro com aparência mais valente.


E, para completar a operacionalidade do conjunto, adquirimos, também, uma extremamente útil carretinha do tipo fazendinha (marca Reclal), com capacidade de carga de até 500 kg (a qual de fato não pode ser extrapolada, haja vista que alguns excessos no decorrer dos anos produziram danos no eixo dela).

Com esta configuração utilitária, entre 2010 e 2011 rodei aproximados 60 mil km com o Barrinho, indo para todos os cantos possíveis, não raro levando conosco uma quantidade nada desprezível de carga.

Para ser viável tal feito, contudo, é imprescindível conhecer a fundo algumas características técnicas do Fusca, de forma a poupar seu conjunto mecânico e, principalmente, a respeitar suas limitações.

Primeiramente, é preciso cumprir algo prioritário: para empregar o carro no limite de sua capacidade (não raro extrapolando-a), a mecânica tem de estar no mais perfeito estado, com absolutamente todas as manutenções preventivas e corretivas realizadas, notadamente no sistema de freio, suspensão, direção, pneus, conjunto moto-propulsor, enfim... tudo tem de estar em perfeito estado, evitando-se quebras constantes e, mais do que isso, acidentes que tenham como fator contribuinte falhas mecânicas e/ou estruturais.

Naquela época, era comum eu realizar revisões no Barrinho a cada 2.500 km, no máximo a cada 3.000 km, quando, além da troca de óleo, o mecânico e amigo Eduardo Tsuzuki promovia uma revisão completa em todas as partes do carro. Normalmente, nada de errado era encontrado. Todavia, tal regra - de promover uma revisão a cada troca de óleo - permitia que tudo no carro estivesse sempre sendo fiscalizado, propiciando-se condições de que os problemas fossem corrigidos em seu início, evitando-se que uma cadeia de consequências e eventos catastróficos fosse iniciada.



Voltando de Botucatu - SP, local em que ficava instalada a fábrica de reboques Reclal. Para testar a capacidade de carga da carretinha, ainda no posto da Rodovia Castelo Branco, meu irmão resolveu atuar como carga viva (obviamente com o carro apenas estacionado, já que é terminantemente proibido o transporte de animais em carrocerias abertas). Com 2,00 x 1,20 de área livre dentro da carretinha, o Barrinho rebocou considerável quantidade de materiais, atuando como um verdadeiro caminhãozinho.


Outro fator determinante para o sucesso deste tipo de utilização é conhecer a fundo as características operacionais do trem de força do Fusca, partes estas que são um ponto crítico durante o reboque de elevadas cargas.

Como sabemos, o motor do Fusca é refrigerado a ar. Assim, o controle da temperatura do motor depende do arrefecimento proporcionado pela ventoinha de refrigeração do óleo, a qual tem sua rotação ditada mecanicamente pela rotação do motor. Portanto, ao se carregar ou rebocar muito peso, é imperioso que o motor trabalhe sempre em rotações mais elevadas, normalmente aquelas situadas entre o ponto de torque máximo e o ponto de máxima potência.

O Manual do Fusca trás consigo algumas páginas dedicadas a este assunto, quando apresenta os limites máximos e mínimos de velocidade para cada marcha, ocasião em que recomenda explicitamente que, quando as marchas mais longas não suprem a necessidade de força, devem ser empregadas as marchas mais baixas tão logo a velocidade adentre à faixa de operação da marcha imediatamente anterior. Por isso, é importante que, ao se rebocar muito peso, as marchas sejam mantidas o mais próximo possível de suas rotações máximas de trabalho (exceto a quarta marcha na estrada, por razões óbvias).



Conhecer plenamente o seu carro passa pela leitura cuidadosa do Manual do Usuário. No caso do Fusca, há uma clara recomendação de como deve ser conduzida a operação das marchas, de acordo com a velocidade, para a promoção máxima da refrigeração do motor a ar.


Deste modo, o motor estará sempre gerando força para tracionar o peso, e, também, estará recebendo uma boa refrigeração proporcionada pela turbina em alta rotação. Com este modo de condução, ainda, não permitiremos que o câmbio sofra um esforço extra ao tentar tracionar muito peso com marchas altas e baixas rotações do motor, pois a metodologia supracitada impõe que o conjunto esteja operando com marchas mais reduzidas do que aquelas utilizadas em condições normais.

Por fim, ao se operar com rotações mais elevadas e marchas mais reduzidas, teremos o freio motor atuando sempre a se aliviar o pé do acelerador, o que auxilia muito a preservar aquele que é um ponto fraco no carrinho (para este tipo de operação): o conjunto de freio, o qual aquece com relativa facilidade ao se andar com o carro bastante pesado.
Nas longas subidas, normalmente vale a pena reduzir um pouco a velocidade para que o Fusca a suba com uma marcha mais reduzida, sempre mantendo-a, quando possível, próxima do limite máximo superior de velocidade para a marcha alocada. Por exemplo, numa subida em estrada, ao invés de forçar o carro subindo a 85 km/h em 4 marcha é vantajoso subir a 75 ou 80 km/h em 3 marcha (assertiva esta embasada pelo Manual da VW).



As lixas anti-derrapantes permitiam que o Fusca fosse "escalado", facilitando a alocação e amarração das cargas que eram transportadas no rack.


Quando se deparar com grandes subidas, normalmente nas cidades ou nas estradas congestionadas, é recomendável subir com uma marcha que completará o caminho sem necessidade de redução no meio dele (reduzir a marcha de um carro extremamente carregado numa subida íngreme gera, normalmente, esforços e trancos consideráveis, além de grande diminuição da vida útil da embreagem), sempre atentando-se a regra mandatória de manter o motor "cheio", ou seja, com rotações mais elevadas para maximizar o torque e o arrefecimento. Deve-se evitar, sempre que possível, subir "queimando embreagem", ou seja, o carro deve enfrentar a subida com uma marcha reduzida, motor cheio, e as partes perfeitamente acopladas (pé longe do pedal da embreagem).

Nas descidas, por sua vez, manter o carro também sempre com marchas reduzidas, de forma que seja praticamente desnecessário pisar no freio. A marcha ideal numa descida nestas condições operacionais de peso é aquela que permita que você reduza a velocidade do carro sem pisar no freio (ou seja, mesmo na descida, caso queira aumentar a velocidade do carro será necessário acelerar). Pode parecer um certo exagero esse cuidado extremo, mas eu garanto que ter o freio aquecido numa grande descida com o carro bastante pesado não é nada agradável... e ele aquece incrivelmente rápido quando o brinquedo está extremamente pesado.

Vale mencionar e frisar que os aumentos e reduções de velocidade devem ser sempre promovidos de modo o mais gradativo possível, a fim de se poupar ao máximo as partes mecânicas envolvidas no processo, haja vista que elas já estarão bastante sobrecarregadas.



Servindo como carro tanque para os galões (pela facilidade de se retirar combustível de um Fusca), o Barrinho, nesta foto, estava sendo preparado para subir uma quantidade respeitável de acesso pela rampa de acesso, haja vista que, devido a chuva (conforme é possível ver na imagem), o caminhão do fornecedor de aço não obteve sucesso ao tentar vencer o liso e precário acesso.


Seguindo estes cuidados, o Barrinho foi capaz de realizar feitos impressionantes no período em que foi utilizado como o nosso utilitário polivalente.

Entregas de produtos extremamente pesados, com 05 pessoas dentro, mais carga no rack, no porta malas dianteiro, no bagageiro traseiro e na carretinha lotada (com 500 kg ou mais) não foram condições rara. Eu diria até que eram cotidianas...

Raras foram as vezes que o Barrinho precisou ajudar a rebocar o trator quebrado (maquininha que pesa míseros 5.000 kg) ou mesmo a camionete atolada (A-10 chassi longo com carroceria de madeira, que não pesa menos que 2.000 kg), além de outras situações menos audaciosas...

Sem dúvida alguma, a valentia deste carro superou a todos, até mesmo a mim, que jamais duvidei da capacidade de um Fusca.


Nos vemos na estrada.

6 comentários :

  1. Rodrigo você é um apaixonado incontestável por Fusca. Divertido e instrutivo ler seu blog. Abraço

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    1. Que bom que gosta Fé!! Espero poder aproveitar mais o carrinho! Abs

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  2. Furtaram meu Itamar (94 mod. 95), e putz, bate uma boa saudade do carro. Foi meu 1º carro e atualmente penso em, mais na frente, adquirir outro. Provavelmente um "fafá" entre 80 a 86.
    O que gosto do fusca é sua multi-função. É charmoso, é confiável, é simples, é bonito, é estiloso, é resistente, é fácil de manter (na maioria dos aspectos), é forte em motor e em peças, etc. As desvantagens são aceitas, limitantes em muitos pontos mas compensadas, porque o carro é uma ferramenta.

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    1. Dennys, obrigado por sua costumeira visita e participação. É uma pena, mas Fuscas são muito visados pela bandidagem. Por isso coloquei a postagem da Trava Veronezzi e em breve colocarei algo sobre o alarme da Positron. Acho que Fuscas são fantásticos como carros robustos e, como você bem disse, seus problemas são facilmente sobrepujados pelas vantagens. Não desanime que em breve você terá outro! Mas, desta vez, coloque tudo quanto é tipo de trava que puder! Grande abraço!

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  3. ressuscitando o topico !! quantos quilos ele puxava na carretinha??

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  4. Cara, se eu tivesse lido esse relato, eu teria comprado esse rack que você indicou. Comprei um rack de outra marca que não resiste a esforços na direção motor/parabrisa. Seu rack apresenta esse comportamento? Eu fico balançando o meu rack pra ver se ele ta firme e ele ameaça sair da calha.

    Em relação ao reboque, quantos quilos ele suporta na ponta? Minha intenção é transportar até 3 bicicletas

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