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Casos e Causos: Uma Fusca sentimental

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Registro do momento em que a Penélope resolveu dar a partida e sair da garagem, após alguns instantes anteriores de pura birra. Fica a lição: jamais subestime os sentimentos de uma Fusca!


Este "causo" ocorreu no princípio de 2011.

Após um ano de 2010 bastante corrido e estressante, organizamos uma viagem para passarmos o Natal em Borborema - SP, distante a quase 400 km da Capital, como tradicionalmente fazíamos em nossa família.

Para aproveitar meu curto e raro recesso, objetivando relaxar a mente, decidi que iria levar comigo para as comemorações de fim de ano o Barrinho, o qual se faria acompanhar dos recém adquiridos pneus lameiros (desenho cross, um dos mais agressivos do mundo para o off-road).




Estacionado na Casa Mal Assombrada da Vó Gleide, em Borborema - SP, imediatamente após a chegada de São Paulo. Final de ano maravilho! Que saudades daquela época!


Não posso negar que foi uma das melhores férias da minha vida, quando comprovei que o nosso valente VW Sedan, quando calçado em pneus apropriados, vira uma máquina extremamente capaz no fora de estrada. Certeza esta que também foi constatada pelo meu pai, quem, após um passeio mais radical na Fazenda São João, perguntou-me algo mais ou menos assim:

-"As Forças Armadas sabem que existe um pneu deste tipo? Eles transformaram o Fusca numa viatura militar, num tanque de guerra!".



Barrinho auxiliando meu primo Thiago em sua colheita de frutas. A foto permite que o leitor contemple os pneus lameiros com desenho do tipo cross, que transforam o já valente VW Sedan numa máquina capaz de transpor obstáculos incríveis.


Após mutias horas e muitos quilômetros rodados em atoleiros, alagados, terra fofa, barrancos, enfim, de diversão, chegou a hora de retornar à São Paulo. Infelizmente, parece que o tempo passa mais rápido nestas horas de relaxamento, as quais poderiam durar uma eternidade.

Voltado à capital, resolvi dar uma volta com a Penélope. Afinal, ela já tinha ficado um bom tempo parada por conta da correria normal de fim de ano.

Ostentadora de acuracidade mecânica invejável, a Penélope sempre ligava com uma facilidade absurda, mesmo após longos períodos de hibernação.

Desta vez, porém, algo estranho ocorrera: ela simplesmente se recusava a ligar!

O Fusca mais confiável que tive na vida não estava querendo dar a partida, mesmo após insistentes tentativas. Como não poderia deixar de ser, já que o acionamento contínuo do motor de arranque drena uma energia absurda, a bateria começou a dar sinais de que estava no fim...

O porteiro da garagem onde a Penélope ficava naquela época, ainda que fosse fã de Fuscas, não demorou a tecer seu comentário:

- "O carro ficou muito tempo parado. Não vai ligar... esqueça!"

Confesso que não gosto de observações chatas nestas horas de estresse. E nada me irrita mais do que um carro não funcionar. Mas, procurando manter a calma (dentro do possível), simplesmente respondi:

- "Vou conversar com ela... Certamente a Penélope não está ligando pois ficou enciumada por tê-la deixado aqui enquanto viajava com o Barrinho..." (constatação esta das mais óbvias; menina que é, a Penélope por vezes torna-se sentimental).

Naquele instante, recordo-me que o porteiro promoveu uma expressão facial que remetia a uma reprovação indelével. Talvez mais do que isso: um olhar de desprezo foi a mim dirigido. Até entendo o porquê: talvez ele, não sem motivos, elucubrou que eu tinha ficado louco.

Ora bolas! Desde quando a média das pessoas conhece os Fuscas tão bem a ponto de saber do que eles são capazes e quais suas artimanhas sentimentais? Portando, passei a ignorar qualquer comentário proferido pelo ser que, na ocasião, estava a me aporrinhar.

Conhecendo a Penélope de longa data, sabia que tinha ferido os sentimentos dela. Pedi desculpas pelo infortúnio. Recordando e dissertando acerca da nossa vivência juntos, prometi-lhe que a levaria para passear, indo novamente para Borborema, quando aproveitaríamos para realizar umas incursões off-road leve, brincadeira esta que todo besouro adora. Encerrei afirmando que o caso foi por ela mal compreendido e que não havia motivos para agir desta forma.

Girei a chave no contato novamente e a Penélope despertou com diferenciada alegria., instantaneamente, como se nada tivesse acontecido.

A expressão de deboche do porteiro agora exalava uma surpresa cujas feições explodiam em sua face. Um gaguejado "eu não posso acreditar no que eu vi" foi pronunciado de forma atrapalhada. E, agora, aquele que me julgara louco estava confuso o suficiente a ponto de acreditar ter ele próprio ficado maluco.

Preocupado com o emocional daquele ser humano, expliquei-lhe que existiram pesquisas que tentaram mensurar o porquê do Fusca ser o carro mais amado do mundo. Invariavelmente, tais pesquisas apontaram para fatos inusitados e curiosos: os proprietários e ex-proprietários de Fuscas, em grande parte, afirmavam que o carrinho era especial pois parecia ter vida própria, entendendo diálogos e muitas vezes atendendo à pedidos diversos.

Quem tem, ou pelo menos já teve, um destes sabe que isso é verdade, e o fato narrado nas linhas acima é mais comum do que é razoável supor. O próprio Barrinho também já corroborou a veracidade desta pesquisa, quando quase ficamos atolados na Páscoa de 2010.



Prontos para pegar estrada, conforme havíamos combinado!


Num final de semana seguinte qualquer, cumprindo minha promessa à Penélope, fui à Borborema buscar a minha avó. Por coincidência, na ocasião, uma chuva torrencial caiu sobre a cidade, permitindo-nos ir até a fazenda para brincar na lama, o que gerou mais um outro causo divertido: na volta para a cidade, demos carona para um transeunte. Andando conosco em alta velocidade, naquelas condições de estrada extremamente lisa, o humilde rapaz exclamou num divertido sotaque caipira: "Rapaiii... Fusca é Fusca mesmo sô!!!".

Após a brincadeira, parei na casa da minha avó. Carregamos a viatura com as malas e partimos imediatamente para São Paulo, já que precisava regressar antes da segunda-feira.



Parada rápida num posto da Rodovia Washington Luís, em Araraquara - SP. Fuscas sempre chamam a atenção na estrada. Quando estão cobertos de lama, então, viram uma verdadeira atração!


Tinha pressa em chegar, já que meus horários eram enxutos. Acabei vindo o tempo todo no limite de velocidade da estrada, inclusive na Rodovia dos Bandeirantes, cujo limite é 120 km/h, provavelmente fazendo os demais motoristas indagarem o que um Fusca coberto de lama fazia naquela estrada, na faixa da esquerda, àquela velocidade, com seta ligada e farol alto relampejante, pedindo passagem para todo mundo...

Não por acaso, foi a vez da minha vó anunciar: "Tirando o barulho, não senti diferença de viajar para São Paulo de Fusca. Parece que volta até mais rápido!".

Na sequência, ela começou a narrar histórias antigas, da época que vir para São Paulo era uma verdadeira aventura fora de estrada. Contou-me sobre a Serra de São Carlos, que sob chuva exigia que os carros parassem e colocassem correntes nos pneus, não raro tendo de pernoitar a espera da estrada secar, ou aguardando a retirada de algum caminhão atolado. E eu, naquele instante, tive uma certeza: eu nasci em época errada! A aviação era mais gostosa no passado; o povo tinha culturas e hábitos mais interessantes e conservadores em algumas décadas atrás e... viajar significa ir de Fusca fazendo trilhas! Uau! Que época maravilhosa...

Mas como é impossível voltar no tempo, cabe-nos aproveitar o presente de maneira diferenciada, procurando sempre o mau caminho...

Afinal, a grande vantagem do besouro emerge em casos como o supracitado. Nenhum outro carro de passeio teria voltado da Fazenda sob aquela chuva sem ter ficado atolado. E, poucos carros também encaram esse tipo de aventura tão intactos a ponto de, na sequência, pegar uma estrada de alta velocidade, sem antes sofrer uma minuciosa inspeção (ao menos para checar se os apliques plásticos estavam caindo...).

Depois disso, a Penélope nunca mais ficou com ciúmes.

Até mesmo porque, nos dias atuais, ela é a minha única Fusca e, por isso, recebe toda a atenção e dedicação possível, repetindo por diversas vezes histórias como a que acabei de narrar.

É como sempre digo: Fusca na garagem não tem nenhuma história para contar!

Nos vemos na estrada.

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