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Casos e Causos: A infinita sabedoria dos Fuscas

Um comentário

Em que pese o Barrinho normalmente servir como uma máquina de fazer alegria, por vezes ele aprontava alguma arte que me deixava furioso. Mas, passado algum tempo, eu entendia que o episódio que eu considerava ruim era, na verdade, algo muito positivo...


O ano de 2012 não estava sendo muito bom para mim.

A crise social vivida pelo Brasil me torturava dia e noite: eu não conseguia conviver direito com a ideia de que nosso país estava se auto-destruindo por absoluta culpa de seu povo. Por consequência, estava me distanciando de pessoas outrora queridas porque elas decidiram se enveredar pelo caminho da ignorância, tornando-se idiotas úteis, verdadeiros mentecaptos que ajudavam a mergulhar a nação num mar de lama cada vez mais fundo. Sei que cada povo tem o governo que merece (e vice versa) e que isso é um processo de retroalimentação infindável para o completo caos, mas aceitar que este seria o futuro da nação que carrega a bandeira que eu havia jurado proteger, com o sacrifício da própria vida se fosse, não era algo tão fácil.

A minha tão amada aviação estava ficando cada vez mais distante. Tudo parecia de cabeça para baixo em minha vida (e isso porque ver o mundo literalmente de pernas para o ar era algo relativamente íntimo da minha pessoa). Para ajudar, tive um péssimo aniversário...

Enfim, tudo estava indo de mal a pior naquele longínquo ano de 2012.

Nem mesmo o Barrinho estava conseguindo me ajudar. Ele bem que havia tentado, levando a Má e eu (na época apenas amigos) para um passeio com a turma na Trilha da Placa no feriado de carnaval, talvez iniciando algo imperceptível na ocasião. Mesmo assim, parecia que nada salvaria aquele ano (mal sabia ele, e tampouco nós, que este passeio seria como uma semente plantada para ser colhida alguns tempo depois, trazendo como frutos então futuros este nosso fantástico atual momento presente!).



Trabalhando pesado durante a semana e passeando (trilhando!) nos finais de semana, o valente Barrinho certamente participou de alguns momentos bons e importantes de minha vida!


Os dias paulatinamente iam se sucedendo, trazendo consigo novas surpresas desagradáveis. Foi, sem dúvida alguma, uma época difícil, repleta de desilusões, reflexões, pensamentos... e, claro, muito aprendizado.

Foi quando o feriado de 7 de setembro (que caiu numa sexta-feira) criou a oportunidade de um pequeno final de semana prolongado. A nossa família decidiu ir para Borborema (para variar) para desfrutar de alguns momentos de lazer e descanso.

E eu realmente precisava de algo para me distrair.

No passado, eu tinha os aviões para renovar minhas energias. Naquele ano, contudo, praticamente não tive contato com os pássaros alados, o que, certamente, contribuiu sobremaneira para a minha condição de mero "zumbi", vagando meio que sem rumo pela Terra.

Diante de tudo isso, decidi que eu iria com o Barrinho para Borborema. Queria ter um pouco de contato com a natureza, passeando pelas estradas da região com o meu valente amigo cujo coração é refrigerado a ar.

Malas prontas e partimos todos para o aguardado feriado, que para mim teria um sabor especial de aguardada calmaria, sendo um porto seguro diante das tempestades que me circundavam.

Meu pai decidira abandonar o conforto do maravilhoso Astra CD do meu irmão, que levaria a nossa família, para ir comigo de Barrinho, enquanto que a namorada do Diego (o irmão do Astra), e sua respectiva querida família, iria integrar o comboio com outro veículo.

Estávamos viajando na Rodovia dos Bandeirantes, a aproximadamente 120 km/h quando bruscas e repentinas falhas de motor aconteceram. O carro começou a emitir estouros pelo escapamento. Instintivamente, tirei o pé do acelerador, deixando a velocidade diminuir um pouco. Na sequência, voltei a acelerar novamente, de forma mais suave e gradual. Pareceu-me que o problema havia se estabilizado.

O Barrinho, como os nossos estimados leitores sabem, era o mais resistente e polivalente Fusca que eu já tive. Ele rodava para todos os lugares a trabalho na nossa empresa e não costumava nos deixar na mão, mesmo quando explicitamente forçado além do limite. Com este grande nível de confiança na máquina, decidi prosseguir viagem, certo da valentia deste meu amigo.

Chegando em Borborema, mesmo sabendo que as condições mecânicas do besouro não eram as ideais, decidi ir passear um pouco nas estradas de terra da região. Eu realmente precisava daqueles tão aguardados momentos no meio do nada!



A região de Borborema reserva surpresas naturais agradáveis, por vezes desconhecidas, como a relatada no último passeio da Penélope por lá.


Foi quando começaram novamente as falhas, desta vez mais severas. Optei por regressar para a cidade (tudo em Borborema é perto para quem é da capital), de modo que, no dia seguinte pela manhã (sábado), procuraria algum mecânico para me ajudar a entender o que estava acontecendo.

Por infortúnio, no regresso para a cidade o Barrinho ficou sem freio. Pane no cilindro mestre!

Não preciso dizer que fiquei inconsolável: um dos Fuscas mais confiáveis e valentes que já vi na vida resolveu ficar parado na garagem, impondo-me duas panes ao mesmo tempo!

É oportuno mencionar que estes nossos carrinhos possuem uma personalidade realmente forte: se eles querem andar, nada os detém, nem mesmo alguns obstáculos que parecem ser intransponíveis. Na contrapartida, quando eles decidem ficar quietos em seu lugar, não há o que os faça mudar de ideia...

No sábado pela manhã, como havia planejado, parti em busca de alguém para mexer na viatura. De fato, eu não aceitava a ideia de que tinha ido até Borborema com o Barrinho para andar na terra e isso não seria possível devido a um mero capricho dele próprio!

Após chegarmos na oficina mecânica, o problema das graves falhas, que eu julgava ser o mais grave e complicado, fora resolvido com relativa rapidez: as engrenagens do eixo do distribuidor não estavam acoplando de modo correto, fazendo com que o distribuidor saltasse de sua posição (por isso os estouros repentino). Problema solucionado alocando-se uma arruela de calço no distribuidor. Alegrei-me de imediato!

Contudo, naquele final de semana os astros do Universo se uniram e se alinharam de tal forma que, por mais incrível que possa parecer, numa cidade na qual os Fuscas são vistos aos montes, trabalhando pesado no dia a dia da roça, não havia nenhuma loja aberta que dispusesse do tão comum cilindro mestre do VW Sedan!

Era realmente difícil de acreditar: além de não conseguir utilizar o carro como uma remédio anti-estresse, precisaria deixá-lo na cidade para buscá-lo em outro final de semana, quando a peça estivesse disponível! O que era para desestressar acabou se tornando um estresse incalculável!

Meio que em estado de choque, completamente incrédulo no que estava ocorrendo, voltei para a casa que havíamos alugado para o final de semana. Parei o Barrinho na garagem e deitei na cama do quarto no qual estava alocado. Encontrava-me tão desanimado com a inacreditável ocorrência que resolvi passar o resto do final de semana dormindo, embora tudo o que eu realmente queria era acordar daquele verdadeiro pesadelo.

Em tentativa de consolo, restou-me procurar na internet alguma causa plausível para todos aqueles problemas repentinos. Não era possível: um carro que rodava milhares de quilômetros no mês, e que apesar do uso extremo recebia cuidados preventivos e corretivos a cada 3.000 km, não podia simplesmente sofrer duas panes graves ao mesmo tempo! Eu precisava debruçar sobre literaturas, textos, experiências, vídeos, enfim, qualquer coisa que justificasse minimamente a probabilidade de ocorrência destes reveses.

Impossível não se sentir mal com tanta coisa desagradável acontecendo em um curto espaço de tempo: onde será que eu estava errando tanto na minha vida?

Desesperado por respostas que me acalmasse, descobri, sem querer, que a Esquadrilha da Fumaça faria uma apresentação no domingo, 09/09/2012, na cidade vizinha de Itápolis.

Ora, considerando-se que o final de semana para mim estava perdido, não custava nada rodar menos de 30 km na esperança de tentar desfrutar de alguns momentos de verdadeiro relaxamento mental.

Assim, no domingo, saímos todos mais cedo de Borborema para o regresso a São Paulo, aproveitando para passar em Itápolis e ver o show da nossa Esquadrilha.

Não tenho a menor dúvida de que aquele foi o melhor show da Fumaça que assisti nos tempos recentes. A Esquadrilha voou mais baixo e mais perto do público do que era o praxe na ocasião, realizando aquela que, para mim, certamente foi a mais bela das apresentações na era dos T-27 Tucano pós-retorno (com a pintura nas cores da bandeira).





Os vídeos acima mostram um pouco do que foi aquele show! Infelizmente eles (os vídeos) não conseguem demonstrar de verdade o que aconteceu e muito menos o que sentiram todos aqueles que lá estavam...


Até hoje eu não sei ao certo o porque, mas o fato é que sai daquela apresentação revigorado. Acho que, de alguma forma, aquele voo me deu um choque de realidade e me mostrou que eu precisava acordar para poder seguir pelos novos rumos da minha vida, demonstrando-me que, não obstante tudo de ruim o que tinha ocorrido naquele ano, a vida ainda me reservaria bons momentos de surpresas e plena felicidade. Exatamente como aquele que estava lá vivendo. Indiscutivelmente, ainda existiam esperanças...

Voltei para São Paulo decidido a recuperar efetivamente o controle de tudo de ruim que estava acontecendo. Não mais me permitiria continuar caindo em queda livre naquele abismo sem fim...

E os resultados foram os melhores possíveis!

No final de 2012, conseguimos realizar aquele que foi até então o melhor ano na história da nossa empresa. Espantei para sempre alguns fantasmas que me assombravam, traçando um novo caminho para a minha vida, repleto de novos objetivos. E eu estava finalmente prestes a iniciar o namoro com a Ma.

E, em todos os estes casos, o Barrinho teve participação ativa e fundamental!

Recordei-me disso tudo ao encontrar, por acaso, um vídeo daquela apresentação da Esquadrilha no Youtube. Um sentimento incrivelmente forte tomou conta de mim, fazendo-me relembrar cada segundo vivido naquele feriado, o qual, erroneamente, eu cheguei um dia a considerar amaldiçoado.

Hoje, porém, ao olhar para trás, avaliando aqueles momentos, eu realmente sei o que aconteceu: o Barrinho, conhecendo-me profundamente como somente nos conhecem os nossos melhores e mais íntimos amigos, sabia que eu precisava assistir àquele magnífico show da Fumaça para, no despertar de emoções, acordar para a realidade, parando de sonhar sonhos impossíveis e de viver pesadelos irreais, ambos tão somente imaginários. Ele sabia que seria uma apresentação especial da Esquadrilha e fez de tudo para que o "destino" me levasse para aquele evento.

E tudo isso só aconteceu porque Fuscas, inexplicavelmente, possuem algum tipo de alma. E uma infinita sabedoria cujas justificativas e entendimentos transcendem quaisquer explicações racionais e razoáveis.


Nos vemos na estrada!

Um comentário :

  1. Se viatura tem alma eu não sei, mas a gente se apega de um jeito que sentimos até ciúmes.

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