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Dicas Técnicas: Revisão completa do motor ("Overhaul")

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No último passeio que fizemos (aqui relatado), vocês devem se recordar de que, ao retornar para casa, ainda na estrada, experimentamos uma pequena perda de potência no motor, pane esta que só não produziu danos ainda mais severos devido ao fato de ter sido identificada à tempo (embora alguns minutos mais tardes do que o ideal). Todavia, mesmo que eu tenha tomado providências imediatas (aliviado o acelerador, reduzindo marchas e prosseguindo com a menor quantidade de aceleração possível, pois imaginava que o motor tinha sobreaquecido), ocorreram alguns danos, até um pouco mais severos do que o esperado. E, antes que o leitor mais incrédulo teça algum comentário, antecipar-me-ei: sim, motores refrigerados a ar também sobreaquecem, e isso acontece com uma frequência maior do que a maioria das pessoas acreditam!

Ao comentar detalhadamente o ocorrido com o Eduardo Tsuzuki, competente mecânico da Penélope, ele insinuou que provavelmente alguma bronzina de mancal teria girado, sem descartar um eventual afrouxamento dos cabeçotes. Para tirar a dúvida, fomos, na sequência, ouvir o barulho do motor do carro, na esperança de identificar o ruído estranho que havia surgido depois do episódio de sobreaquecimento supracitado. Como de costume, após algumas aceleradas, nosso experiente mecânico apontou o diagnóstico: "rodou" a bronzina da biela!

Foi difícil acreditar! Após praticamente 10 anos de convivência com a Penélope, período no qual rodei algumas dezenas de mil quilômetros com essa maravilha viatura, ela foi escolher justo este momento para apresentar problemas de saúde em seu valente coração? Fosse em outras épocas, iria considerar o fato uma belíssima oportunidade para uma revisão geral no motor, promovendo-lhe algumas bem-vindas melhorias! Mas, indiscutivelmente, esta não era a melhor hora para isso ter acontecido...




Um pouco chateado e decepcionado, encostei nosso carrinho na garagem da Vó Marina. A correria do trabalho não me permitiria cuidar da minha Fusquinha da maneira merecida. Também não era o momento de dispor de uma considerável quantia de dinheiro para repará-la da maneira correta...

Entretanto, devido à situação, estava cada vez mais difícil dormir sossegado. Algo me incomodava demais quando eu fechava os olhos na tentativa de descansar das pesadas e estressantes rotinas de serviço. O motivo era mais do que óbvio: deixar a Penélope abandonada sozinha, sem cuidados, na garagem seria quase a mesma coisa que abandonar um familiar querido agonizando sem tratamento, jogado em algum local qualquer. Acredite, estimado leitor; percebi que a situação chegou perto do intolerável, beirando a insanidade, quando, ao repousar minha cabeça no travesseiro, fechando os olhos para dormir, vinha-me à mente o vociferar das palavras de Alphonsus Guimaraes em seu poema "A Catedral": "E o Rodrigo chora em lúgubres responsos: Pobre Penélope! Pobre Penélope...




Passados alguns dias, tomei coragem de combinar com o Eduardo de mexer no carro, até mesmo porque estava ficando preocupado comigo mesmo. Seria melhor gastar um montante de dinheiro na viatura do que ter de entregá-los a médicos, hospitais, psicólogos e manicômios...

Confesso que, no fundo, tinha esperança de o motor estar bastante íntegro por dentro. Afinal, o besouro não soltava fumaça visível, não baixava óleo, tinha um bom desempenho, consumo satisfatório...

Por infortúnio, entretanto, a abertura do motor revelou condições ainda mais desagradáveis e indesejadas: de fato o Edu tinha acertado o diagnóstico e a bronzina de biela havia girado; o virabrequim e o comando estavam demasiadamente gastos; um dos cabeçotes apresentava uma minúscula trinca; a carcaça do motor precisaria ser retificada também, além de outros pormenores.

Na oportunidade, também descobrimos um dos vilões do problema: a bomba de combustível, com quase 5 anos de uso, não estava dando a vazão e pressão adequadas. Refletindo sobre o assunto, posteriormente, cheguei a conclusão que provavelmente isso aconteceu porque, em tempos recentes, o carro passou a ficar muito tempo parado, haja vista que os compromissos profissionais estão cada vez mais constantes.




Passado o dissabor inicial, assimilei, com a ajuda terapêutica insistente do Tsuzuki, que a melhor alternativa seria realmente promover uma retífica completa no motor, aproveitando a ocasião para melhorar algumas características desejáveis.

Assim, com o objetivo de tornar o coração da Penélope ainda melhor, e por mais alguns bons anos, a carcaça foi retificada; o comando de válvulas foi substituído por um novo em configuração "tork" (pós 1984); os cabeçotes foram trocados pelos do motor 1.500; o virabrequim foi substituído por um proveniente de uma Kombi antiga (usado, mas em bom estado e em medida standard); a taxa de compressão fora maximizada, passando das originais 6,6 para 7,5; bielas, volante do motor e tudo mais devidamente balanceado; carburador totalmente revisado, com giclagem alterada para os cilindros do 1.600; além de outras coisinhas mais...

O norte que direcionou as pequenas alterações promovidas foi bastante claro: obter o máximo de torque na menor RPM possível (mesma ideologia empregada no motor da Kombi), de forma a termos a maior quantidade plausível de força para superar os obstáculos no fora de estrada, sem ter de acelerar demais e correr o risco de perder tração em momentos críticos. Em outras palavras, queríamos que a primeira marcha da Penélope ostentasse um comportamento o mais próximo possível da reduzida dos 4x4 (por razões físicas e mecânicas, é impossível obter tal equiparação, mas vale o exemplo para entendimento e auxílio à instrução).

Estabelecidas as alterações, era hora de juntar o quebra-cabeça e, finalmente, trazer à vida o coração revisado da nossa protagonista. Deste modo, após montado todo o motor, logo na primeira partida, percebeu-se de imediato os resultados obtidos: funcionamento mais suave, mais silencioso, com bastante força em baixíssimas RPM, insinuando que provavelmente tínhamos logrado êxito na empreitada.

Nos dias subsequentes, iniciamos alguns testes na cidade, ficando com uma sensação bastante positiva acerca da nova configuração.

Num destes dias, a Penélope e eu fomos acionados de emergência: o Volkswagen Up da nossa empresa, bisneto dos Fuscas, sofreu uma pane elétrica em Santa Isabel: a bateria, repentinamente, simplesmente deixou de funcionar, impossibilitando a partida do veículo após uma rápida parada para almoço do meu pai na estrada. Saímos para socorrer o novo carrinho de plástico, aproveitando a oportunidade forçada para testar a nossa viatura na estrada. O desempenho, como era de se esperar, estava bastante satisfatório: com uma leve pressão no pedal, conseguíamos manter 80 km/h mesmo nos trechos de subida, e era nítido que o motor trabalhava de forma mais suave, balanceada e silenciosa.

Feito o resgate através de uma "chupeta" entre os carros, regressamos à São Paulo.




Alguns dias depois, fomos para Atibaia no final de semana para resolver algumas pendências profissionais e outras pessoais. Como de praxe, a Penélope se comportou de maneira exemplar. Foi quando o tempo fechou e uma forte chuva desabou sobre a cidade. O que para muitos seria algo ruim, para nós acabou sendo uma excelente oportunidade: testar o novo motor na lama! E, assim, prosseguimos para o Terreno do Puma, já velho conhecido nosso aqui do Blog. Devido à semana chuvosa, e a água que estava caindo abundantemente, um grande atoleiro se formou logo na entrada do Parque de Diversões Off-Road. Escolhi um caminho mais complicadinho, primeira marcha, aceleração bem leve e... parecia que não existia o atoleiro. O torque em baixas rotações, aliado à capacidade de tração dos pneus Maggion Militar, permitiram-nos atravessar o obstáculo com calma e elegância. Empolgado, tratei de ir até a subida com erosões que leva à outra saída do local. Com a chuva, o caminho se tornou bastante liso e, devido aos buracos e inclinações, uma vacilada poderia nos colocar numa situação mais complicada. Novamente a combinação de boa tração, boa articulação e excelente torque em baixa contribuíram de forma decisiva para o êxito na empreitada.

Feliz e satisfeito com os testes iniciais, retornamos à São Paulo, desta vez de forma tranquila e sem surpresas desagradáveis, como sempre foi de costume com a Penélope!

No fim das contas, acho que ela estava querendo apenas um pouco de carinho, atenção e cuidados (merecidos, diga-se!), de modo a nos levar para passeios cada vez mais legais...

E, algum tempo depois, isso se tornaria verdade. Mas este passeio especial eu relatarei na próxima postagem apenas...

Nos vemos na estrada!

8 comentários :

  1. Bom saber que o motor de fusca é bastante parametrizavel. Da até vontade de ter um.

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    1. Será que vamos buscar um pra você em breve?

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  2. Como fiz o amigo, lendo suas postagens, a vontade aumenta em ter um fusca....

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    1. Amigo Ricardo; suas palavras nos faz extremamente felizes! Se tem a vontade, não perca tempo... tenho certeza que será bastante recompensador!

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  3. E fazendo a leitura do blog, é como participar um pouco das aventuras da penelope....

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    1. Fico feliz pelo comentário! Realmente a Penélope tem uma vida diferente da maioria dos Fuscas rs...

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  4. Amigo me de uma ajuda estou prestes a retificar o meu 1300 mas gostaria de mais torque pois pretendo pegar estrada basicamente serra. Gostaria de saber o quais as peças trocaste para eu poder replicar a receita pois me pareceq a Penelope ficou exatamente como eu gostria.

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    1. Reinaldo, se não estiver disposto a gastar muito um kit 1600, comando tork 2ag e nova regulagem de giclagem do carburador resolvem bem. Caso queira gastar mais poderia aproveitar e trocar os cabeçotes também. Aumentar a taxa de compressão um pouco e bem vinda e câmbio curto sempre. Abs.

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