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Casos e Causos: O dia que alguns 4x4 desejaram ser um Fusca

2 comentários

Penélope no Aeródromo Vale Eldorado: sempre que possível, lá estamos nós!



Prezados leitores;

Faz mais de um ano (!) que o Blog da Penélope está sem atualizações...

Peço milhares de desculpas por isso! Porém, em meados de 2017, quando mudamos para Atibaia, jurava que, a partir de então, as postagens seriam mais comuns, mais rotineiras, e mais interessantes...

Contudo, a vida é totalmente imprevisível, e não raro, bastante complexa.

Se, por um lado, minha vida pessoal sofreu uma total reviravolta com esta aguardada mudança, quando pude retomar antigas paixões, realizar sonhos e atingir objetivos de vida em um tempo bem mais curto do que o esperado (tornando-me totalmente apaixonado por esta cidade), na contrapartida, minha vida profissional tornou-se o exato oposto.



Penélope trabalhando: ajudando a fiscalizar obras!


A mudança da nossa empresa transcorreu com mais traumas e mais dificuldades do que o previsto, a ponto de termos de praticamente reinventar nosso modelo de negócios em termos estratégicos e de produção. E, só para variar um pouco, outra ironia da vida (esta com ares de verdadeira sacanagem familiar): hoje, sou eu quem defendo arduamente o exato modus operandi que meu pai havia implementado na empresa no início de sua atuação no segmento de fornecimentos, o qual eu briguei ativamente para mudá-lo do avesso há exatos dez anos atrás...

E, caro leitor, confesso que, durante este meio tempo, praticamente cometi um crime: a Penélope ficou bastante "largada". Está rodando perfeitamente, em plenas condições e com total confiabilidade, obviamente, mas por mérito exclusivo dela, não meu, haja vista que fui um dono absurdamente relapso e incompetente nos últimos quase dois anos (comprei um par de pneus para ela e me comprometi a dedicar-lhe especial atenção neste fim de ano como pedido de desculpas).

Muitas pessoas indagaram se minha querida Fusquinha não apresentou quebras durante este tempo. Não, de forma alguma. "Mas eu ouvi dizer que Fusca dá muito problema e não sai da oficina", insistem em argumentar algumas pessoas...

Então, infelizmente, sou obrigado a explanar, geralmente de maneira bem direta (característica intrínseca à minha pessoa), que Fuscas costumam ter três problemas: (1) dono, (2) motorista e (3) mecânico. Se o valente carrinho está dando trabalho, uma boa análise de cada um dos três aspectos supracitados certamente será o suficiente para encontrar o problema em sua causa raiz.

Eu costumo dizer que menosprezar um Fusca, sobremaneira em suas inquestionáveis capacidades de transpor trechos complicados, é algo não muito saudável: na esmagadora maioria das vezes, quem duvida passa vergonha.

Para quem tem e usa muito os besouros, a situação acima descrita não é tão rara...

No passado bem distante, ainda muito criança, deslumbrava-me quando, durante os períodos de férias, em dias de chuva, retornando da Fazenda São João, em Borborema - SP, todos os carros se enroscavam numa complicada e longa subida de lama. Todos, exceto, obviamente, o maravilhoso Fusca 1.300, ano 1980, azul noturno, que era do meu pai. Era o único VW Sedan presente. Era o carro mais simples e barato. Mas era de longe o mais valente! Ultrapassava sem dificuldades locais que até as camionetes se enrolavam.

Lembro-me, também, de uma vez que, transpondo um trecho alagado com o Barrinho, tentei ser acompanhado por uma moça (quem provavelmente pensou algo do tipo: "se este Fusca caindo aos pedaços vai, eu vou também). Como esperado, o chique, caro, moderno e frágil carro de plástico se afogou, enquanto o velho VW refrigerado a ar atravessava o trecho e continuava a viagem, como se tivesse passado por cima de uma pocinha de água.

Sem falar das vezes que subia uma íngreme e lisa rampa de paralelepípedos com o Barrinho puxando muitas centenas de quilos de aço, sob protestos incrédulos.

Teve, ainda, em épocas mais recentes aquela vez em que um grupo de ciclistas recomendou-nos dar meia volta, já que o "Fusquinha" não iria subir uma subida complicada de erosões e pedras soltas na Estrada do Sal (ver a postagem clicando aqui).

E, em uma de minhas últimas idas à São Paulo com a Penélope, também passei por um alagamento no Viaduto Bresser que causou calço hidráulico a uma boa quantidade de potentes, rápidos e naufragados carros do ano...

Enfim... muitos são os diversos casos de situações onde o nosso brinquedo foi ridicularizado, e, na sequência, respondeu com deboche e provocação, superando a adversidade que alguns tratavam como impossível de serem transpostas por uma "lata velha".



Explorando locais em Atibaia - SP.



Mas, dentre todas as situações, uma foi especialmente divertida... quando a Penélope, para variar, "causou" novamente!

Tínhamos ido para Atibaia - SP (minha noiva, eu, meu irmão e minha cunhada) com a viatura. Era um sábado, mais precisamente em 16/01/2016. O objetivo seria realizar algumas fotos para retrospectiva do meu casamento e da Má, minha esposa (ver postagem clicando aqui).

Aproveitando a chuva que caia por dias seguidos, há quase duas semanas, passamos no Puma para brincar um pouco e obter imagens para o filme especial que meus irmãos e meu cunhado iriam fazer. Os atoleiros estavam realmente fundos e, como estávamos sozinhos, sem outra viatura para dar apoio, optamos por não extrapolar muito nas brincadeiras.

Decidimos, então, prosseguir para a Pedra Grande, local relativamente perto do Puma, para uma sessão de belas fotos para a ocasião especial.

Por um atalho de estrada de terra, cortamos um bom caminho.

Chegando na estrada que leva ao cume da Pedra, evidenciamos que a chuva por lá havia caído de forma torrencial: muitos buracos, diversas árvores tombadas, alguma lama, enfim, pistas diversas de que a chuva realmente não havia sido leve...

Para quem não conhece, o caminho para a Pedra Grande fica entre Atibaia e Bom Jesus dos Perdões, sendo que, para se chegar ao cume, deve-se encarar uma subida de terra que possui alguns trechos razoavelmente íngremes, com uma ou outra erosão, mas nada muito complicado em condições normais. Já fui até o topo da Pedra com diversos carros, incluindo Vectra, Palio, Uno, Kombi, todos sem maiores problemas, exceto uma ou outra condição pontual.

Mas, após tanta chuva, era de se esperar que a estrada estivesse um pouco pior. E, de fato, estava!

Algumas centenas de metros antes de chegarmos ao cume da Pedra, de onde contempla-se uma vista maravilhosa da cidade de Atibaia e de toda a região, visualizamos uma boa quantidade de carros parados do lado direito da estrada. Achei estranho e pensei que poderia ser algum acidente, algum assalto (paulistano é traumatizado), ou até mesmo um trecho intransponível (eba!).

Por sorte, era a última opção: fomos advertidos por uma moça e por um rapaz que deveríamos encostar o carro e prosseguir a pé, pois, daquele ponto em diante, não era possível passar de carro devido as condições da estrada.

Questionei-os sobre o que realmente havia no caminho. Disseram que estava muito ruim e que não dava para passar, sem dedicar-nos maior atenção.

Insisti que iria com a Penélope até mais adiante para ver o que estava ocorrendo. Nisso, fomos "fuzilados" com desprezo e com ares de superioridade (e de plena ignorância): "Nem a Ranger e nem a RAV4 conseguiram subir". E o olhar a nós dirigido continuou, afirmando algo do tipo "e vocês, pobres, acham que irão subir com esse lixo de quatro rodas?". Afinal de contas, para eles, se crossovers como Tucson, Sportage, Ecosport não passavam, um velho Fusca jamais iria lograr êxito neste desafio.

Ainda, com parcimônia, perguntei se a Ranger e a RAV4 eram 4x4 (afinal de contas, camionetes 4x2 no fora de estrada as vezes se enrolam mais fácil que um Uno Way...).

-"Sim, é 4x4" - foi a resposta que obtivemos, num tom de quem não havia gostado da pergunta feita pelo "mendigo" motorista da "carroça".

Respondi: -"Ok. Vamos apenas checar mais de perto então".

Nisso, um senhor japonês, de mais idade, ao se aproximar do carro, falou algo do tipo: - "Olha, esse talvez até passe (né)... Fusca sobe até parede (né)", enquanto abria um largo sorriso e praticamente nos reverenciava em respeito, conforme costume de sua distinta cultura. Provavelmente, dentre os agora pedestres, era o único lá que, talvez pela idade e experiência de vida, entendia um pouco mais de fora de estrada e de carros, sabendo dar valor ao que o carro é e não ao que o carro custa.

Na sequência de toda essa "confusão", iniciando um vagaroso deslocamento, comecei a avaliar a encrenca que tínhamos pela frente.

Na verdade, nesta parte da estrada, um trecho bem íngreme estava castigado pela chuva, com muitos pequenos buracos, os quais certamente estavam fazendo perder tração os pneus daqueles carros sem curso de suspensão e cujos motoristas afoitos deveriam estar acelerando demais. Alia-se a esta condição duas grandes erosões abertas pela água (que também tirou o pedregulho da estrada, deixando um trecho de terra molhada), e tem-se uma condição aparentemente complicada para quem não tem experiência no off-road, e muito menos uma máquina mais capaz.

Lentamente, a Penélope foi transpondo o trecho tido como impossível. Ao olhar mais adiante, vi que os buracos e a terra ali na frente estavam realmente lisos (aquela terra escura bastante lisa), então promovi uma leve embalada no carro, para que, se ele perdesse tração, a velocidade auxiliasse na transposição do obstáculo. Fiz ainda sinal com a mão para que um grupo de pessoas saísse da frente. Fui novamente fuzilado por olhares incomodados, típico de quem pagou uma fortuna por um carro, acreditando no vendedor que prometeu que o "jipe" (ou SUV) seria capaz de aventuras inimagináveis.

A cada metro vencido, o olhar de deboche se transformava num olhar de frustração... e, sob tamanha dificuldade, maximizada ainda por uma enorme carga de força negativa puxando-nos para trás, a Penélope apoiou as rodas direitas no barranco, desviando das partes mais fundas valas e, como não poderia deixar de ser, logrando êxito na missão!

Conforme previsto, a Penélope seguiu em frente, deixando para trás o trecho "intransponível", aproveitando-se do torque em baixa rotação do VW a ar, do câmbio curto e da enorme capacidade de tração proporcionada pelo conjunto motor traseiro, tração traseira e frente leve.

Infelizmente, grande parte das pessoas não entendem patavinas do que acreditam entender (um grande problema cultural no Brasil atual, onde as pessoas querem dar sua opinião em tudo, sem jamais ter estudado um pouco mais a fundo o assunto) e, por menosprezarem as qualidades indiscutíveis e inatas do Fusca para superar obstáculos, fazem típicos "papelões".

E, de forma automática e sincronizada, ouvi uma uníssona comemoração dentro do nosso valente carro, quando minha noiva colocou o braço para fora, comemorando o feito, e contribuindo sobremaneira para majorar a profunda decepção daqueles infelizes espectadores que, àquela hora, certamente pensavam o quão ruim é gastar verdadeiras fortunas num pseudo-SUV e vê-lo humilhado e derrotado por um velho e barato Fusca.

O feito fez minha cunhada virar uma fã incondicional do Fusquinha (ela, que até então só tinha feito passeios mais radicais conosco de 4x4, não imaginava que o VW Sedan fazia estripulias do tipo).

Ao chegarmos no cume da Pedra, encontramos mais dois carros: um Jeep Wrangler preparado, e uma Mitsubishi Pajero TR4, dois ícones do 4x4.



Ah, a vista do cume da Pedra Grande...


Entretanto, era possível verificar que a Penélope teve toda a atenção do mundo naquele instante.

Prosseguimos com a sessão de fotos e, antes de ir embora, fomos abordados por um casal que estava de moto. O rapaz nos disse, todo feliz, que tinha um Fusca, e que somente quem tem um sabe do que são capazes. Aproveitou a deixa para reforçar com a sua esposa que os besouros são os melhores carros que existem.

Concordamos com isso, obviamente!

No caminho de volta, cruzamos com uma Ranger e uma Hilux, ambas cabine dupla e 4x4, cujos integrantes nos olharam e sorriam. Mais uma vez a atenção era da Penélope, já que eles jamais esperariam ver um Fusca lá em cima.

Um pouco mais abaixo na descida do retorno demos de frente com aquele simpático senhor japonês que logrou nos dar algum crédito. "Vocês riram da nossa cara (né)?!" disse ele, em tom de brincadeira.

Até certo ponto, sim. Não dele, claro. Mas, na verdade, confesso, rimos da cara de algumas pessoas que lá estavam e que inquestionavelmente menosprezaram o nosso valente carro, embasados apenas pelo valor de mercado do automóvel em que estávamos.

Rimos da cara de algumas pessoas, normalmente infelizes, que, com medo de terem uma dissonância cognitiva grande, tentaram limitar outras pessoas, equiparando-as ao seu fracasso pessoal.

Rimos da cara de quem fez cara feia para nossa decisão de prosseguir apenas porque estavam com o capô do seu carro aberto na tentativa desesperada de refrigerar o ultra-moderno câmbio automatizado do seu caro veículo.

Enfim... rimos da cara das pessoas que, infelizmente, deixam-se levar pela desprezível condição atual que domina  a nossa realidade enquanto sociedade, onde você somente merece respeito se estiver de posse de um bem de consumo caro, que para eles é mais importante do que o que você é de fato.

Situações assim me fazem rir da cara de algumas pessoas, as quais não conseguem conceber que um Fusca pode ter um valor incalculável de histórias, emoções, enfim, de vivências que dinheiro nenhum no mundo pode comprar.

Para mim, o que tem valor de fato é o que você é e o que faz de bom para contribuir com este país, tão carente de recursos humanos de verdadeira qualidade!

A grande verdade é que, embora ninguém dentre os caminhantes por lá quisesse confessar, tanto os proprietários quanto os seus caros e chamativos veículos 4x4, naquele exato instante, desejaram ter e ser um Fusca, respectivamente.

Afinal de contas, quando a estrada é muito ruim, é sempre bom estar num besouro! Ele ultrapassa os obstáculos, vencendo toda a sorte de dificuldades do terreno, levando consigo ainda uma incalculável bagagem de maus olhados, olhos gordos e energias negativas que tentam arremessá-lo ladeira abaixo.

Mas nada disso importa, afinal, Fusca é Fusca! São totalmente inertes às armadilhas da via...

E, se vale de metáfora para a sua vida, seja exatamente igual nosso guerreiro de pernas de borracha: quanto mais tentarem puxá-lo para trás, quanto mais tentarem puxá-lo para baixo, assim como um Fusca, use essa força para levantar a cabeça, empinar o nariz e obter mais garra e ainda mais tração para a superação do obstáculo, seguindo o seu caminho não importa o que outros ao redor digam.

Afinal de contas, missão dada é missão cumprida!

Os covardes nunca tentam. Os fracos ficam pelo caminho. Somente os fortes conseguem!

E, oportunamente, reforço: amanhã, dia 28/10/2018, teremos a primeira, a verdadeira e a exclusiva chance, desde a chamada "redemocratização", de atuar efetivamente para a mudança do status quo, do establishment, que dizimou a nossa sociedade e fomentou condições propícias ao crescimento de uma cultura totalmente equivocada, a qual atinge praticamente todas as pessoas de forma silenciosa e invisível, tornando bastante complicada a recuperação da nossa sociedade enquanto nação verdadeiramente civilizada e evoluída!


Nos vemos na estrada, com o Brasil acima de tudo sempre!


2 comentários :

  1. Perfeito... desejo que o blog continue sendo alimentado hehehe

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  2. Boa! Senti falta desses relatos da mais autêntica e respeitável fuscomania! Um abraço!

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